Skip to main content

Full text of "Carta apologetica e analytica que pela ingenuidade da pintura, em quanto sciencia"

See other formats


• ».  ■ . 


■ r 


'yèi, ' ■ 


■S 


j 


,.v, 


Digitized  by  the  Internet  Archive 
in  2016 


https://archive.org/details/cartaapologeticaOOcruz 


l^oUlis  iíta  verU  pfx>prio  sTpoitata  cÍecor*e, 
Vt  vTibi  recldcntur  debita  Jum  rogam; 
Jofeph  noTuC"''<  rabes  : hoc  Incpememta  rectudit^ 

S ontíat  çffcctu rn  nomvnis  lUa  í ut . 


XCIaLuí.  0X\47SÚ. 


i 


CARTA 

APOLOGÉTICA» 

E ANALYTICA, 

Que  pela  ingenuidade 

DA  PINTURA, 

EM  QUANTO  SCIENCIA, 
E/creveo  com  profundijiímo  re/peitOf 
AILLUSTRISSIMA,  E EXCELLENTíSSlMA  SENHORA, 

D.  A N N A 

Dfc  LORE  N A, 

Marqueza  Camereira  mór  das  Rainhas  noíTas  Senho- 
ras , e da  Sereniflima  Senhora  Princeza  doBrafil, 

COMO  PROFESSORA,  E PROTECTORA  AUGUSTA 

dejia  Sciencia , 

JOSEPH  GOMES  DA  CRUZ, 

A ROGO  DE  ANDRE'  GONÇALVES 

•Pintor  ingénuo  Ulyíliponeníe. 

LISBOA, 

Na  Regia  OfEcina  SYLVIANA,  e da  Academia  Real. 

M.  DCC.  LU. 

Com  todas  as  licenças  necejfarias. 


■r-.l 


\ .1 


: > rr: 


■ 

' ■ V ''• 

■•  !k  ■ V 

< - .t 

'ií»i  ... 


r '■] 


\ d 


-i 


V y„s,  w :X  ri  1 ''K  4 tc| 


,t  ■ * 


-'X :4  r.  <i* 


i V 


^ ,.  , 5ÍÍI,. 

T>‘iÁ  •■  : í r^‘  '' « *•  * 


'J 


i:é-i  . (j^|v-^;,  S 


A- 


li 

í ■ ; .';^ 


s2í  --'i  ; 


r'*-  ^í.  ' 


«L-«v: 


'^'  ■ ■ 

*1*1.  -5  ■ -'-C 


íír{n.B  í'':“  • -rf;ÈO..E.sY'ít:sM 

iOi'. ,' i •■  •»»<  ;i'íít!i  't.:  i,  Ki,'f«t«?í  Btil”  ií  *”>  .'•  < £*•  '■>  í ''Í'F-  - ■ 


..  .S)V  V’ 


ÍJrr 

í - ‘ 


• ■ - 

I ' 


i . 


..rí  > h- 


'■''  â 


. c.:*  i f ' ;n  ga  -o:>Oíi  a 'r; 


/ . ■!’> 


"'íí'  .>' 


■ ^ , ' '■'»■?  , ■ !►' 


■ ,Aonfí:rvfX' 

-Ai.:)?!  j ,ÁMA17ÍlY?cfií^!'Ü  Aipylit^í 

' '.í;  ■ . ■ '•■  >^'  ' ■’-■  ' 

, : i-t-A'>V.^^,'>  Al  L>í\h{\l^XV^VAX7\0  l ^:! 


,v’'.« 


•vri-  ’*  r^i/-..v 


•::'-pi  •.*■■’.  •<,'■<". '‘X:.v' 

■^'  ■.{  • :.  ^M'hAV>-  • wiHt/ 


LICENÇAS. 

Do  Santo  Officio. 

Cenfura  do  M.  R.  P.  M.  Francifco  V elofo , da 
Companhia  de  fe/u , QuaMcador  do  Han~ 
to  Oficio  f tXc. 

ILLUSTRISSIMOS  SENHORES. 

ESt  çt  cn  Jem  de  V oílàs  Senhorias  na6  foy 
preceito  para  o meu  rendimento , mas 
obfequio , o mais  eftimavel,  para  o meu 
agradecimento.  Por  quanto  em  obede- 
cer , nao  fó  com  promptidao  , mas  também 
com  alegria , nao  fiz  facrificio  , fiz  fim  huma 
fineza  , em  que  fe  intereflava  o meu  deíêjo, 
com  ogofto  de  ler  eíla  Carta  Apologética , e 
Analytica  , que  o feu  Author  efcreveo  com 
penna  taô  raígada  , e aparada  , como  fua  , à 
llluftrifiima  , e Excellentiífima  Senhora  Mar- 
queza  Camereira  mór , a favor  da  Ingenuidade 
da  Pintura. 

E na  verdade  correfpondeo  o fucceflò  à 
minha  expedaçaôj  porque  achey  dentro  defta 

Carta 


Carta  hum  theíbiiro  de  letras , e noticias , que 
compunhao  hum  tao  elegante  , como  erudito 
Arrezoado  , que  naÔ  íó  perfuade  , mas  con- 
vence a qualificada  nobreza  de  huma  Arte , de 
cuja  alta  origem  nao  fe  póde  duvidar , por  ter 
fido  concebida  em  huma  bella  , e perfeita  Idéa, 
filha  legitima  da  mais  nobre  Potência  do  Mun- 
do pequeno , o Entendimento  do  homem  j e 
ainda  com  mais  fineza  , e melhor  fortuna , do 
que  Minerva  j por  nao  ter , nem  ainda  aquellas 
groíferias , que  efta  Deofa  contrahio  do  cerebro 
de  Júpiter , ao  menos  com  alg;uns  longes  de  me- 
chanica.  Pois  que  direy  dos  leua  iiinflres  Bra- 
zoens , tao  antigos  , como  os  primeiros  Jeio 
glificos , que  inventaraô  os  Egypcios , para  ex- 
primir os  aífedos  do  animo  , antes  que  Apollo- 
doro  apuraílè  o pincel  , Filodes  lançafle  as  li- 
nhas, Cleofanto  diftribuiííè  as  cores  , e Arifti- 
des  com  a ultima  perfeição , por  virtude  defta 
Arte , obraílè  maravilhas  , em  correfpondencia 
dos  maravilhofos  effèitos  da  natureza,  que  pro- 
curou equivocar  com  a mefma  Arte  : de  ma- 
neira , que , fendo  errado , nem  por  ilíò  deixou 
de  fer  defculpavel , e ainda  difcreto  , aquelle 
enleyo  dos  fentidos , efpecialmente  dos  olhos , 
com  que  Zeuxis  pouco  depois  enganou  as  aves, 
e Parrafio  os  mefmos  homens. 


Mas 


Mas  ainda  que  a Pintura  naõ  foílè  taõ 
nobre  por  naícimento , ou  por  infelicidade  fua , 
com  a mudança  dos  tempos , e ruina  dos  Impé- 
rios , tiveíle  perdido  o foro  de  fua  fidalguia ; 
bem  podia  agora  dar  as  alviçaras , a quem  lhe 
aprefentafiè  efte  illuftre  padrao  da  fua  Nobreza, 
que  com  Ibbrefcrito  de  Carta  remetteo  o Au- 
thor  à Illuftriffima  , e Excellentiffima  Senhora 
Marqueza  Camereira  mór , í’em  feaflliftar,  pa- 
ra fufpender  os  voos  da  fua  penna , com  o ref- 
peito  devido  a huma  Senhora  defta  qualidade , 
que , por  eftar  taõ  próxima  às  Mageftades , e 
Princezas  Reaes , fomente  lhe  falta  a Alteza  pa- 
ra lêr  mayor.  Mas , como  efta  Carta  encerra 
em  fi  tanto  Direito  , tantas  razoens  , e docu- 
mentos tantos,  com  que  toda  a Jurifprudencia, 
e erudição  do  Author , nao  digo  eu , fomente 
favorece  , mas  também  pudera  ennobrecer  a 
mefma  Pintura  na  falta , ou  perda  da  fua  No- 
breza; jufto  era,  que  efte  Jurifconfulto , o ma- 
yor da  nofla  Naça5  , ufaílè  a mefma  politica  do 
Doutor  Máximo  da  Igreja  S.Jeronymo  , a quem 
nem  acovardou  a grandeza , nem  reprimio  a fan- 
tidade  de  huma  Santa  Paula,  a mais  efclarecida 
Matrona  de  todas  as  Senhoras  Romanas , para 
deixar  de  efcreverlhe , naÕ  fó  huma,  mas  mui- 
tas Cartas , todas  cheas  de  piedade , e difcriçaõ. 

Quanto 


Quanto  mais , que  para  eíla  Carta  íèr  bem  re- 
cebida , e aceita  de  Sua  Excellencia , com  ale- 
gre , e benigno  íemblante , bailava  fer  Carta  de 
recomendação , e favor  , a refpeito  de  huma 
Arte , que  mereceo  o íeu  agrado ; e nao  fó  el^ 
te , ainda  que  bailava  , para  mais  realçar  nos 
olhos  de  todos ; mas  também  (o  que  he  mais) 
huma  eilimaçao  tal , que  , fe  pudera  ter  razao, 
aílim  como  muitas  vezes  tem  alma , feria  juilo 
o íèu  defvanecimento , por  ter  fido  nao  poucas 
vezes  exercitada  por  humas  mãos  taó  delicadas, 
que  bem  as  podia  beijar , por  lhes  dever  mais , 
do  que  a outras  mãos  , a fua  mayor  fineza , 
primor , e elegancia.  E certo , que  iilo  fomen- 
te bailava  para  mayor  tymbre  da  fua  Nobreza. 

Por  eila  caufa  tinha  muita  razao  o Au- 
thor  para  fe  indignar  contra  o vulgo  ruilico , e 
infipiente  , por  ter  taÔ  máo  gofto  , e baixo  con- 
ceito de  huma  Arte  , que  vendo-a  andar  por 
efllis  alturas  dos  mais  nobres , e foberbos  Pala- 
cios  , ainda  aílim , a defeílima , e reputa  por  me- 
chanica , como  fe  fora  nafcida  , e creada  nas 
mais  humildes  choupanas.  Mas  defculpo-o  em 
parte  , por  iílb  mefmo , que  ignorava  até  agora 
eíle  Padrao  da  fua  Nobreza.  Agora  fim , tan- 
to que  fe  publicar  eíla  Carta , já  ninguém  ha- 
verá tao  groílèiro , que  lhe  nao  faça  huma  cor- 

tezia 


tezia  correfpondente  à fua  graduaçaõ ; por  fer 
tao  attendido,  erefpeitado  o Nome  dofeu  Au- 
thor,  que  baftará  faberfe,  que  elle  acreditou  ef 
ta  Arte  com  a fua  penna  , naô  menos  fubtil, 
que  o pincel , de  quem  a cultiva , para  ninguém 
já  mais  lhe  difputar  a íiia  Ingenuidade.  De  mim 
confeflb , que  quando  li  efta  Carta , formey  taÕ 
alto  conceito  da  fua  Nobreza , que  fíquey  ne* 
ceííitado , nao  fó  para  a trazer  nas  palmas , mas 
também  para  a collocar , fe  pudera , debaixo  dos 
mais  altos  dóceis  j porque,  depois  de  qualifica- 
da a fua  Nobreza  com  a excellencia  de  tantos, 
e taô  magnificos  titulos , com  que  o Author  de 
novo  a ennobrece , e engrandece , he  fem  con- 
troverfia , que  fe  lhe  devem  conceder  todas  as 
honras que  faÕ  commuas  às  mais  Artes  libe- 
raes , e ainda  outras  mayores,  como  fe  foraPrin- 
ceza , ou  Rainha  de  todas. 

Por  ultimo  rogara  eu  também  agora  a 
quem  fez  efcrever  efta  Carta , na6  puzeflè  fo- 
mente o feu  empenho , em  dar  à eftam.pa  efta 
Carta,  mas  também  em  nos  dar  hum  Retrato 
do  feu  Author  com  aquella  delicadeza  de  mao, 
e fubtileza  de  pincel,  que  todos  admiraÔ,  epor 
iílb  he  a mais  apta  , para  reprefentar  ao  vivo 
efte  mayor , e melhor  Mecenas  da  Pintura , que 
com  eftas , e outras  Obras,  todas  dignas  dofeu 

raro, 


raro  , e paímofo  engenho  , bem  merece  ficar 
immortal  , naô  íb  na  memória  , mas  também 
nos  olhos  dos  vindouros.  Aííim  o efpero  com 
a mefma  impaciência , com  que  odefejo ; e com 
tanta  preíía,  quanta  terão  Voílãs  Senhorias  em 
dar  a licença , que  fe  pede , para  imprimir  efta 
Carta , que  para  bem  havia  de  fer  imprefla  com 
caraderes^de  ouro , pela  fua  preciofidade  , fem 
fezes  algumas  de  vicio , que  encontre  a fineza 
da  Fé , ou  a pureza  dos  bons  coftumes.  Lisboa 
na  Çafa  Profeflà  de  S.  Roque  aos  20  de  No- 
yembro^de  1751. 

Francifco  Vello/o. 


Vlíla  a informaçaÕ  , pode-fe  imprimir  a 
Carta  Apologética , que  fe  aprefenta , e 
depois  voltará  conferida  , para  fe  dar  licença , 
que  corra  , fem  a qual  nao  correrá.  Lisboa , 
2}  de  Novembro  de  1771. 

Abreu.  Almeida.  Trigofo. 


Do  Ordinário 


Cenfura  do  Keverendo  Doutor  Jo/eph  Thomâs 
Borges , Presbytero  Secular , O* c. 


EXCEL.”»  E REV.”°  SENHOR. 

VI  com  a mayor  attençao  a Carta  Apolo- 
gética , e Analytica , que  pela  ingenuida- 
de da  Pintura , em  quanto  fciencia , efcreveo  o 
Doutor  Joíèph  Gomes  da  Cruz  , e a liçaÔ  del- 
ia me  fegurou  indeíèdlivel  o grande  conceito , 
que  muito  antes  me  havia  devido  efte  Efcritor , 
eximiamente  verfado  em  huma , e outra  Jurif- 
prudencia , infigne  em  todo  o genero  de  erudi- 
ção, e com  publico  louvor  acreditado  m Re- 
publica litteraria.  Se  todas  as  Obras , que  af 
pirão  àluz  doprélo,  foílêm  tao  magiftralmen- 
te  compoílas , nenhum  lugar  deixariao  para  a 
cenfura.  Nefta  Carta  naõ  Te  defcobre  nem  hu- 
ma fó  fyllaba , que  fe  opponha  aos  dogmas  da 
Religião , ou  à pureza  dos  bons  coílumes : e af 
fim  julgo  , que  V.  Excellencia  pode  conceder 
a André  Gonçalves , ProfeíTor  ingênuo  da  Pin- 
tura , a licença  , que  pede  para  a eílampa  da 

~ * mefma 


mefma  Carta : e fempre  V.  Excellencía  deter- 
minará o que  for  fervido.  Lisboa , 27  de  No- 
vembro de  1751. 

J^eph  Thomás  Borges. 


Vlíla  a informação,  pode-fe  imprimir  o pa- 
pel , de  que  fe  trata , e depois  torne  pa- 
ra fe  dar  licença  para  correr.  Lisboa,  i de  De- 
zembro de  1751. 

D.  J.A.  ãe  Lacedemonia. 


Do 


Do  Defembargo  do  Paço. 

Cenfura  de  Diogo  Barbo/a  Machado  , Abbade 
Ke/ervatario  da  Igreja  de  Santo  AdriaS  de 
Sever  do  Bijpado  do  Porto , e Acadêmico  da 
Academia  Real,  t:fc. 

SENHOR. 

AExcellente  Arte  da  Pintura  , ainda  que 
teve  a fua  origem  da  fombra  dos  corpos, 
na5  lhe  impedio  efte  efcuro  naícimento  a poí^ 
fe  do  Principado  , que  logra  entre  todas  as  Ar* 
tes  liberaes,  aíTim  pela  antiguidade  do  tempo, 
como  pela  vaílidaõ  do  dominio.  Foraõ  os  leus 
primeiros  cultores  os  Egypcios , dos  quaes  inf- 
truidos  os  Gregos,  eftes  a introduzirão  emita* 
lia , onde  affim  no  fim  da  Republica , como  no 
reynado  dos  primeiros  Cefares , alcançou  grande 
eílimaçao  •,  porém  com  a ruina  do  Império  Ro- 
mano padeceo  igual  decadência  , da  qual  a reí^ 
taurou  na  feliz  Epoca  de  1 240  Cimabue  , che- 
gando com  o progreííò  dos  annos  à íiia  mayor 
perfeição.  A vaftidaô  do  feu  dominio  fe  dila- 
ta defde  o convexo  do  Firmamento  até  a fu- 
períicie  da  terra,  e introduzindo-fe  no  Império, 
faz  vifivel  aMageftade  do  Altiííimo,  e de  todas 

*ii  as 

O 


as  Jerarquias,  que  formão  a Corte  deíle  Divi- 
no Monarca  ; privilegio  , que  lhe  concedeo  a 
gentilica  authoridade  deCicero,  lib.  i.  deUa- 
tur.  Deor. , fallando  das  fuas  mentidas  divinda- 
des : Dfos  novimiis  ea  fade , c\ua  Piâtores  volu' 
erunt.  Coardfa-fe  cada  Arte  liberal  a hum  úni- 
co argumento.  A Grammatica , na  diípoíiçao 
das  letras  , e propriedade  de  palavras  ■,  a Diale- 
<5Hca  , no  artificio  dos  fyllogifmos ; a Rhetorica, 
na  elegancia  dos  difcurfos  j a Arithmetica , na 
computaçaô  dos  numeros  j a Mulica , na  arrao- 
nia  das  vozes  5 a Geometria,  naarrumaçaô  das 
terras ; e a Aílrologia , na  obfervaçaÔ  dos  Pla- 
netas 5 porém  a Pintura , emula  da  natureza , e 
imitadora  da  Divina  Omnipotência , íê  coroa 
IMnceza  de  todas  as  Artes , reprefentando  tudo 
quanto  fe  admira  no  theatro  do  Mundo , com 
hum  tao  agradavel  encanto , e innocente  Ma- 
gia , que  obriga  aos  olhos  a confeílar , que  o 
íalfb  he  verdadeiro  , o mudo  eloquente  , e vi- 
vente o morto , nafcendo  efta  ocular  illufaõ  do 
primorofo  engenho , com  que  o defenho  fe  vê 
animado  pelo  colorido.  Para  immortal  credi- 
to do  Magiílerio  de  tao  nobiliííima  Arte  , que 
difcipulos  nao  fahiraÕ  da  fua  Efcola , dos  quaes 
logrando  fomente  a primazia  no  tempo  os  Apel- 
les , Timantes , Protogenes , Zeuzis , Parraíios, 

e Pan- 


e PanííHos  , os  deípojarao  defta  gloria  , os  que 
florecerao  neftes  últimos  íêculos , chegando  com 
milagrofo  artificio  a transferir  os  feus  efpiritos 
para  os  corpos  , que  formavao  com  o pincel. 
Deftes  famofos  Corifeos  receberão  as  Nações 
mais  illuftres  da  Europa  novos  tymbres  com  os 
íèus  nafcimentos , gloriando  fe  Roma  com  Ra- 
fael de  Urbino , Julio  Romano,  André  Sachiy 
Cyro  Ferri , e Carlos  Marata  : Florença  com 
Miguel  Angelo  Buonarrota , André  dei  Sarto, 
e Pedro  de  Cortona : V eneza  com  Sebaíliao  dei 
Piombo  , Jacobo  Tintoreto  , Paulo  Caliaiia  í 
Lombardia  com  Luiz  Carache  , GuidoReno, 
Miguel  Angelo  de  Caravagi ; Alemanha  com 
Rembrant , Joao  Holbeim , e Abrahao  de  Mi^ 
gnon:  Hollanda  com  Lucas  deLeiden,  Abra- 
haõ  Bloemuert , e Francifco  Mieris : Flandes 
com  JoaoStradan,  Martim  de  Voz , Paulo  Bril, 
Antonio  Vandych  , e Pedro  Paulo  Rubens: 
Inglaterra  com  Guilherme  Dobfon  , Pedro  Le- 
ly  , e Jaques  Thornhill  : França  com  Simaô 
Voüet  ,.Nicoláo  Poúífin,  Carlos  Lebriin  , An- 
tonio Coypel,  ejacintho  Rigand:  Caftella  com 
Jofeph  Ribera,  chamado  o Hefpanholeto , Bar- 
tholomeu  Murilho  , e Diogo  Velaíques ; e Por- 
tugal com  o GraÕ  Vafeo  de  Vifeu,  Afif^nfo 
Sanches  Coelho,  Gaipar  Dias , Amaro  do  Val- 


le , Diogo  Reynofo  , Fernaô  Gomes , Jofeph 
doAvellar,  Diogo  Pereira,  Marcos  da  Cruz, 
Bento  Coelho,  o infigne  Francifco  Vieira , Ca- 
valleiro  da  Ordem  Militar  de  Santiago , e entre 
elles  aquelle  , que  foy  caufa , de  que  fe  efcre- 
veílè  efta  Apologia  , cujo  nome  nao  declaro  ,• 
receando  ofíènder  a íua  virtuofa  modeftia.  Pa- 
ra eílabelecer  os  antigos  brazoens  de  taô  illuf- 
tre  Arte , e dos  feus  Profeflbres , fahe  a campo 
‘o  Doutor  Jofeph  Gomes  da  Cruz  , armado  da 
fua  inimitável  elegancia  , e nao  lhe  bailando 
para  eterno  credito  do  feu  talento  as  eruditifli- 
mas  Allegações  Jurídicas , que  admirou  o Areó- 
pago Lufitano , dignas  de  ferem  recitadas  no  Se- 
nado da  antiga  Roma  , das  quaes  podia  apren- 
der eloquência  o mefmo  Cicero , fe  empenhou 
a patrocinar  cauía  mais  nobre  j ecomo  omayor 
adverfario  defte  privilegio  foflé  o Filoíbfo  Se- 
neca  , o explica  com  tal  arte , que  o faz  parcial 
da  fua  opinião , moílrando , que  a íeveridade  Ef- 
toica  defte  Filofofo  fe  armara  contra  aquelles 
Pintores  , que  com  eftrago  da  continência  da- 
vao  a beber  pelos  olhos  o veneno  de  aílèdos  laf 
civos , como  já  no  feu  tempo  lamentava  S.  Pe- 
dro Chryfologo , Serm.i^j:  Formant  adulte- 
ria  in  fiinulocris , fornicationes  tmaginihus  man- 
dant , titulant  incejla  piãuris  j cujo  abominá- 
vel 


vel  ufo  condemnou  o Concilio  Tridentino  na 
feíT  25.  de  Kejormot.  Omnis  lajcivia  vitetur , 
ita  iit  procaci  vemjlate  imagines  non  pingan- 
tur,  nec  ornemur.  A eftes  fautores  da  lafcivia, 
e antagoniftas  da  honeftidade  , fe  lhe  deve  ne- 
gar o privilegio  da  nobreza  , e na6  àquelles , 
que  religiofamente  praticao  as  fuas  ideas.  Efte 
mefmo  argumento  propugnou  haverá  cento  e 
vinte  e cinco  annos  o Doutor  D.  Joao  de  Bu- 
tron  , profeílbr  de  ambos  os  Direitos , no  livro , 
que  imprimio  comotirulo  dt  Difcurfos  Apolo- 
géticos , en  cjiie  Je  defiende  la  ingenuidad  de  la 
Arte  de  la  Pintura ; mas  aííim  como  o Sol  ven- 
ce a todos  os  Aftros  na  copia  das  luzes , e a a guia 
a todas  as  aves  na  velocidade  dos  voos,  excede 
efta  Apologia  àquella  na  elegancia  do  eftylo  , 
copia  de  authoridades , e efficacia  de  argumen- 
tos. Viva  pois  o eriiditiílimo  Apologifta  eter- 
namente copiado  nefte  papel  pela  lua  penna, 
onde  permanecerá  indelevel  mais  do  que  pelo 
pincel  dos  mais  celebres  Pintores  , dos  quaes  et 
tabelece  a nobreza , e formelhe  aEftatuaria,  em 
gratificaçaÔ  do  zelo  , com  que  propugnou  os 
honoríficos  tymbres  de  íua  irmãa  a Pintura,  hum 
íimulachro,  onde  por  toda  apofteridade  le  ve- 
nere o feu  nome  contra  a voracidade  do  tem- 
po.  Eíle  he  o meu  voto , que  entaÕ  ferá  judi- 

ciofo , 


ciofo , quando  V.  Mageílade  ordenar  , que  fe 
pubÜque  eíla  Apologia , na  qual  nao  podia  feu 
Author  cahir  na  menor  tranfgreflaõ  das  fuas 
Leys , fendo  o mais  profundo  Profeflbr  delias. 
Lisboa,  IO  de  Dezembro  de  1751. 

Díogo  Barhofa  Machado. 


QUe  fe  polTa  imprimir  , viílas  as  licenças 
do  Santo  Officio , e Ordinário  , e depois 
de  impreílb  tornará  à Mefa  para  íe  con- 
ferir , taxar , e dar  licença , para  que  poílâ  cor- 
rer , fem  a qual  naó  correrá.  Lisboa , 20  de 
Dezembro  de  1751. 

Marquez  P.  V az  de  Carvalho. 

Almeida.  Mouraõ. 


ILLUS, 


X 


ILL."*  E EX.“''  SENHORA. 


ü 

JIL^^^ECORRE  a V.  Excellencia  a Pin- 
tura , para  lhe  proteger  a ingenuidade  ofièndida 
em  Portugal : e quanto  delinquiria  eu  contra  o 
generofo  efpirito  de  V.  Excellencia , íèo  perten- 
deflè  perfuadir  com  difcurfos  para  a protecção 
de  huma  Arte  liberal , a que  V.  Excellencia  fe 
applica  com  illuflre  perfeição.  Padece  a Pintu- 
ra entre  nós  as  injuftiças , de  que  lè  queixa  ma- 
goadamente  j porque  os  feus  Profeflbres  cuida- 

A dofos 


2 Carta  Apologética , 

dofos  no  eftudo  , mais  que  no  predicamento  , a 
nao  remiraõ  do  conceito  do  noííb  Paiz  , nifto 
maisbarbaro,  que  difciplinado;  enafceo  defte 
defcuido  o abuíb  de  fe  reputar  mecanica  efta 
Arte , que  he  compendio  elegante , fcientifico, 
e viftofo  de  tantas  fciencias  principaes , que  neb 
Ia  melhor  feexaltao,  do  que  fe  (ymbolifaõ:  ve- 
rifícando-fe  o paradoxo  incrivel  de  fe  fuppor  o 
compoftõ  mecânico,  cujas  partes  faô  nobiliífi- 
mas. 

Prototypo  das  Artes  liberaes , oftentaça5 
do  engenho  , credito  do  penfamento  , defper- 
tador  do  efpirito  , doutrinador  da  vida , efcri- 
tura  dos  feculos , lingua  das  antiguidades,  ver- 
dade das  hiílorias , meílra  dos  ignorantes , mila- 
gre da  natureza  , indice  patético  dos  afíèdos, 
e paixoens , de  humanidade , e efpelho  das  obras 
do  Artifice  fupremo,  he  por  ajuftada  definição, 
e analogia,  a Pintura  , que  fe  exercita  com  fci- 
encia  primorofa.  Por  ella , e em  reprefentaçao 
genril , explica  o profefibr  theorico , e pratico , a 
luave  intimativa  da  Rhetorica  , a fermofa  pro- 
porção da  Semytria  , a regra  magiílral  da  Arift- 
metica , a expreííliõ  affeâ:uofa  da  Mufica  , os 
penfamentos  divinos  da  Poefia,  a luz  clara  da 

Hiílo- 


e Ãrialytica,  2 

Hiíloria  , a organizaçaÕ  ícientifíca  da  Anato- 
mia , e íinalmente  no  quadro,  em  que  tudo  ifto 
fe  exercita , fabe  o pincel  emendar  os  defcuidos 
da  natureza , formando  figuras  mais  belias , e 
regulares,  do  que  ella  produzio. 

Por  ifíò  clamo  eu  agora  decorofo , e confi 
tante , que  das  Sciencias  moraes  ( naõ  fallo  na 
Theologia,  ejurifprudencia  ) nenhuma  he  tao 
nobre , doutrinal , e precifa  , como  a Pintura 
para  a inftrucçaÔ  dos  noílbs  eoftumes , e apro- 
veitamento 5 porque  nem  tanto,  nem  melhor, 
que  a Pintura , outra  Arte  nos  introduz,  com 
agradavel  expreíTao,  preceitos  puros , nos  enca- 
minha com  doce , e vehemente  atracçaô  , para 
emprezas  de  honra , e de  virtude  , e nos  dá  idea 
clara,  e pofíivel  de  Deos , e das  fuas  maravi- 
lhas. Porefta  Arte  (que  toda  he  de  entendi- 
mento) recebemos  luz  prompta  para  a compof- 
tura  da  vida  , quando  a ma5  do  Artifice  perfei- 
to nos  intima  com  elegante  moralidade , no  pai- 
nel hiftoriado  , allegorico , metafórico  , e de- 
monftrativo , as  regras  virtuofas  para  o exercicio 
da  honeftidade  dos  noílòs  paíTos ; pois  he  a Pin- 
tura affim  doutrinada , flagello  rhetorico,  e mu- 
do dos  vicios,  e efpirituofo  incentivo  para  aper- 

A ü feição 


4 Carta  Apologética , 

feição  moral,  e política  doVaraôSabío,  eCa* 
tholico. 

Nao  fe  exercitava  no  íèculo  de  Seneca  a 
Pintura  com  efta  moralidade  j porque  Roma 
gentílica  ( depravada  na  concupifcencia  , que 
tanto  entre  outros  vidos  graílòu  naquellas  ida- 
des ) eftimava  em  muito  objedos  lafcivos , nos 
quaes  ( rafgado  o veo  da  pudicícia ) fe  eftuda- 
vao  eftimulos  para  o deleite , e também  fe  de- 
dicavao  os  amores , profanando-fe  a immunida- 
de  da  mentida  natureza.  Seneca,  mais  moral  na 
doutrina,  que  nos coftumes , enfurecido  contra 
a torpeza  dos  Romanos , e reputando  na  Epif- 
tola  88a  Lucilio  aos  Pintores  daquelles  objedos 
artífices  da  deshoneftidade , os  confiderou  indi- 
gnos da  claflè  das  Artes  liberaes  5 e bailou  efta 
declaraçao , ou  efte  dogma  Eftoico  ( nao  con- 
tra a Pintura  como  fciencia  , mas  dirigido  aos 
Profeflbres  delia  , que  viciofos  introduziao  na 
imagem  immodefta , fe  bem  perfeita  nas  regras 
da  Arte , reprefentações  abomináveis)  para  que 
principiaílè  o conceito  , de  que  a Pintura  era 
ilJiberal , adulterada  a doutrina  de  Seneca  na  ge- 
neralidade , com  que  foy  recebida. 

Correrão  os  tempos,  e crefcerao  nelles  as 

liber- 


e Amlytica,  5 

liberdades  dos  Efcritores , exercitadas  muitas  ve- 
zes com  foberba , e oílentaçaõ  j porque  perdi- 
da pelo  peccado  do  primeiro  homem  a armo- 
nia  do  íocego  plácido , que  haveria  no  ventu- 
rofo  eftado  da  innocencia  , fe  franquearao  as 
certezas  pela  porta  das  difputas , introdiizindo- 
fe  nellas  osvicios  das  delicadezas,  e defvaneci- 
mentos , como  tributo  hereditário  da  natureza 
corrompida , que  fe  confumirá  com  ella  no  abra- 
zado  dia  do  diluvio  univerfal  5 e confeguio  o ini- 
migo da  verdade  perfeguilia  de  modo , que  na- 
da houveílê  no  Mundo,  em  que  ella  naÕ  expe- 
limentaíTe  opinião. 

PaííàraÕ  osFilofofos  doPaganifmo  as  vi- 
das em  queftoens , inventaraô-fe  as  Seitas , fre- 
qnentarao-fe  as  Aulas , erigirao-fe  também  Eí^ 
colas  no  Cbriílianifino , e em  fim  fe  bemquifta- 
rao  as  Criticas ; porque  o demonio , pelo  dom 
da  fciencia  , que  coniêrvou  , perdida  a graça , 
antevio , que  a natureza  humana  propenfa  pa- 
ra a variedade , e dominada  do  e^irito  da  in- 
quietação , que  domina  de  ordinário , o enge^ 
nho  facil , e agudo  perturbaria  a certeza  das 
coufas  no  raeímo  exame  , que  entraílè  para  a 
indagar , disfarçandolhes  os  delirios  da  paixao , 

e da 


6 Cartà  Apologética , 

e da  vaidade  nos  meyos  de  a excluirem. 

Tudo  neflia  forma  fe  perturbou,  padeceo, 
c padecerá  pelo  primeiro  peccado  j e também 
a Pintura  experimentando  os  efleitos  deílas  per- 
turbações , padece  o conceito , com  que  a inju- 
riarão eílès  Doutores , que  lhe  difputaô  a no- 
breza originaria , e politica.  Nao  podiao  achar 
principio  folido  no  Direito  primitivo  dos  Ro- 
manos , porque  nos  duzentos  e quarenta  e qua- 
tro annos  , a que  fe  extendeo  o governo  dos 
Reys , foy  a Pintura  eílimada  diílinclamente , 
como  o era  a familia  dos  Fábios  com  o appelli- 
do  de  Pidor , brazaõ  illuílre  dos  Confules  def- 
eendentes  de  Fabio  , filho  terceiro,  e legitimo 
de  Numa , Rey  fegundo  de  Roma , que  como 
Profeílbr  pintara  nella  o famoíb  Templo  da  Sau- 
de. Naô  podiao  defcobrir  nas  doze  Taboas,  nos 
Plebifcitos , Senatus  Confultos  ,Edi6los  dos  Pre- 
tores , repoílas  dos  Sábios , e nas  Conftituiçoes 
dos  Príncipes , que  foraó  os  Legisladores  fuccef- 
fivos  , e difcretivos , do  primeiro  Direito  Civil , 
efcrita  Ley  alguma  , porque  a nao  havia , con- 
tra a nobreza  da  Pintura.  Nao  podiao  valerfe 
do  mageftofo  corpo  das  Leys  compiladas  , e 
feitas  por  JuíHniano  , porque  as  que  elle  nos 

deixou 


e ^nalytica.  7 

deixou  priviligiavaô  diílindamente  a Pintura , 
e para  a difiàmarem  , bufcaraô  o lugar  de  Se- 
neca  , e fortalecendo-o  com  as  interpretações 
malignas  de  alguns  textos  , em  que  fundaraÔ 
hum  rdfma,  que  he  heretico  no  lentido  civil, 
e político , contra  toda  a Ley , e prudente  ra« 
cionaçao. 

No  entendimento  moral  de  Seneca  fe  ex- 
ercitou o primeiro  mais  forte  infulto  deflès  Dou- 
tores , e padeceria  Seneca  daqui  em  diante  no 
conceito  dos  eruditos  modernos  , fe  eu  nefta 
Apologia  nao  vindicaílè  a fua  moralidade  do 
vilipendio,  com  que  a pervertem : 2Ví?n  adducor^ 
ut  in  numerum  hberaiium  arthm  piclores  recU 
piam  , non  magis  (juam  Jiatuarios , aut  marmo- 
rarios  , aut  catercs  hixuria  miuifiros , efcreveo 
Seneca  naquella  Epiftola  88  a Lucilio.  Naõ  ad- 
mittio  neftas  palavras  entre  as  Artes  libera  es  aos 
Pintores  deshoneftos : e quem  na5  vê  , que  Fal- 
lou  dos  Pintores  em  particular , e nao  da  Pintu- 
ra em  geral , nao  deteftando  a fciencia , mas  o 
abufo  delia  ? E por  illò  quando  reprehendeo  a 
efiès  Artifices,  lhes  decjarou  logo  o motivo  cau- 
fal  de  ferem  miniftros  da  fenfualidade.  E fe 
Seneca  tanto  vituperou  o máo  ufo , que  fe  da- 
va 


8 Carta  Apohgeticd^ 

va  à Pintura , embravecendo-íè  contra  os  Pin- 
tores , que  abufavaô  do  feu  virtuofo  fim , niílò 
moftrou  o quanto  a louvava,  íendo  excitada 
fem  eílè  abufo , explicando  como  Filofofo,  que 
era , na  deteftaçaÔ  concretiva  do  viciofo  na  Pin- 
tura , o que  devia  fer  louvável  nella.  Por  iflò 
declamou  pela  caufa  final , que  o movia , para 
que  fe  nao  entendeíTe  , que  deixava  compre- 
hendidos  em  geral  aos  Pintores,  que  fe  naÔ  ex- 
cluiao  na  dita  caufa. 

Eu  nao  me  admiro , que  contra  Seneca  íe 
apararaô  , e apuraraÔ  pennas  eruditas , delica- 
das , e anatômicas  , que  o arguiraô  de  inconfi 
tante , e também  de  contrario  na  fua  doutrina  j 
porque  fempre  contra  osYirgilios,  osCiceros, 
e Titolivios,  houveraÔ  Polioens,  Marcos  Bru- 
tos , Calvos  Afinos , e outros  Ariílarcos  Píêu- 
docriticos  íbberbos.  Reparo  íb,  que  dentro  na 
doutrina , que  fe  abraçou  como  virtuofa,  de  Se- 
neca , fe  eílabelecellè  a propofiçaô , que  o infa- 
maíTe  j querendo , que  elle  no  puro  fyílema  fi- 
loíbfico  deteftaílè  o bom  na  invediva  determi- 
nada contra  o máo.  Quem  na  mefma  fcien- 
cia  reprehende  o vicio  , engrandece  a virtude. 
Quem  abomina  hum  contrario,  abraça  o outro. 

Quem 


eAnalytica,  p 

Quem  caftiga  o delinquente,  eftima  a Ley  of- 
fendida.  E quem  priva  do  privilegio  da  No- 
breza , reconhece  a exiftencia  delia. 

Nem  he  crivei,  que  amando  Seneca  ef- 
pirituofamente  os  incentivos  da  honra , da  glo- 
ria, e da  vida  doutrinada,  como  moílraô  os  diA 
eretos  clamores  dos  feus  preceitos  moraes  , e 
fendo  eftimador  heroico  das  perfeições  do  en- 
tendimento , vituperaflè  a Arte  da  Pintura , que 
he  epilogo  perfeito  , e vifivel  delias.  Na  fua 
raefma  Roma  via  Seneca  pintaremfe  nos  Ef- 
cudos , e Eftandartes  bellícos  as  armas , as  proe- 
zas , e as  façanhas , como  defpertadores  effica- 
zes  dos  Soldados  para  acções  gloriofas.  No 
Senado  achava  reprefentadas  pelo  Artifice , hif- 
toriador  mudo , as  batalhas , em  que  o Povo  fa- 
hira  vencedor : e erigidos  nos  lugares  públicos 
os  retratos  Iconicos,  eEthicos  dos  Triunfado- 
res Olympicos,  exemplares aíli vos,  que  alentaf- 
fem  os  efpiritos  para  fortaleza , e emprezas  ma- 
gnanimas  , melhor  intimadas  pelos  olhos , que 
pelos  ouvidos , e com  elegancia  mais  penetran- 
te nas  figuras  do  pincel  fabio  , que  pelos  tropos 
da  lingua  do  Orador  erudito. 

Na  idade  de  Seneca  permanecia  a familia, 

B que 


I o Curta  /Ípologetíca , 

que  já  diflê  , dos  Fábios , com  o appelHdo  de 
Pidor.  No  Catalogo  dos  Profeflòres  da  Pintu- 
ra, contava  Seneca  mmtos  Principes  Romanos, 
que  exercitarão  efta  fciencia.  No  Syftema  da 
Efcola  Efloica  era  liberal  tudo  , o que  a difci- 
plina  dos  Gregos,  primeiros,  e melhores  Mef- 
tres  daPolitica  civil,  reputaraÔ  por  ingênuo.  E 
era  dogma  elemental , que  já  vinha  de  Cicero, 
nao  fe  abater  a fciencia  abílradiva  pelo  uíb  vi- 
ciofo  dos  Profeflòres  delia : e naÔ  merece  o en- 
tendimento de  Seneca  fe  lhe  attribua  'doutrina 

4 

contradidoria  das  virtudes , e eftudos , de  que 
elle  foy  proclamador  j nem  os  Romanos  zela- 
dores das  honras , predicamentos , e diftinçoes  j 
íofreriao  fe  envileceflè  o eftado  da  nobreza  da 
Pintura,  que  tanto  feeftimava  naquelle  Povo, 
vendo-fe  a fi  abatidos  , a feus  anteceflòres  , a 
tantos  Principes , e a huma  geraçao  Real,  illuA 
trada  com  Confules  pela  penna  de  Seneca , fe 
elle  exprimiflè , o que  os  Efcritores  nos  feculos 
futuros  a elle  efcreveraS , que  diflèra  ! 

O mefmo  Seneca  definio  nefla  Epiflola  a 
Pintura  dentro  na  regra , .que  deixava  já  efta- 
belecida  de  fer  liberal  toda  a applicaçaô ; e o 
eíludo,  que  os  Gregos  chamaraÔ  Difciplina  li- 
beral , 


e Jnalytica,  1 1 

beral , que  foy  também  a definição  de  Ulpiano 
para  as  Artes  liberaes : Libera/ia  autem  Jludta 
accipimus , (jii<e  Graci  Uberales  di/cipUnas  vo- 
cant  5 e accrefcentou , que  todos  os  empregos, 
dignos  do  Varao  livre  , erao  liberaes  í Quare 
Uberatia  iludia  diÓía  funt  vides , <\uia  hetnini  li- 
bero digna  funt , caterum  iinum  Jludium  vere  li- 
berale  ejl , quod  liberiim  facit , idejl,  fapientia 
fublime , forte , magnanimum.  E bem  fabia  Se- 
neca , que  os  Gregos  eftimavao  a Arte  da  Pin- 
tura com  tal  diftinçao , e fuperioridade  das  mais 
Artes  liberaes,  que  nenhum  mancebo  ingênuo, 
fem  a aprender , paíTava  para  o eftudo  de  outra 
fciencia  , prohibindo  ( para  que  foflè  nobre  a 
Pintura ) por  Edido  perpetuo , o ufo , e o efiu- 
do  delia  aos  eferavos : Et  hiijus  auóloritate  (diz 
Plinio)  efeâíum  ^ ficyone  prinnim:  deinde,  C>* 
in  tota  Greecia  , ut  pueri  ingenui  ante  cmnia 
antigraphicem  ; hoc  eji , Piãuram  in  ludo  doce' 
rentur , recipereturijiie  Ars  ea  in  priwum  gra- 
dam liberalium  : femper  (juidem  honos  ei  fuit , 
ut  ingenui  eant  exercerent : mox  ut  honejU  per- 
petuo interdiSío , ne  feientia  docerentur  ; e def- 
ta  difciplina , e do  dito  Edido  dos  Gregos  nos 
dá  a mefma  certeza  Alexandre  de  Alexandre, 

B ii  acerefi 


12  Cariâ  Apologética^ 

accrefcentando  , que  era  reputado  por  indou- 
to  , inhabil , e preferido  por  todos , quem  nao 
aprendia  a dita  Arte , que  como  a primeira  das 
liberaes , era  vedada  aos  efcravos : Sicut  ftcyo- 
ne , mox  peromnem  Gr  teciam  tanti  fiiit  Jludii, 
ut  pueros  ingênuos.  PiÓíuram , tamquam  pra^ 
cipuain  Hheralium  artium  in  primis  edocerent 
Magijlri  perpetuo  interàiâíoj  ne  ad  illam  man- 
cipia  admitterentur , indoãusque , C?*  omnium  pof- 
tremus  habebatur , quisquis  hujus  artis  nefcius , 
mit  expers  for  et  e he  ponto  concordado  nos 
eruditos  da  Hiíloria  Grega. 

No  mefmo  modo , fe  Seneca  na  opinião 
da  Filolbfia  Eftoica  concluía , que  fó  era  libe- 
ral o eftudo , que  fazia  aos  íeus  Profeíibres  ani- 
mofos , fortes , e livres  nas  fuas  acções , e por 
iílb  deteftava  os  Artífices  das  Pinturas  daquel- 
les  feculos , (que  commummente  eraõ  lafcivas , 
como  diz  Filippo  Beroaldo  no  Comento  de 
Suetonio  Tranquillo ) porque  attrabiaõ  os  âni- 
mos àefcravidaõ  da  concupifcencia 5 claro  he, 
que  pois  nefiès  Pintores  fe  naÕ  verificavaÕ  as 
partes  da  definição  , haviaõ  fer  elles  illiberaes. 
Nem  Seneca , exercitando  a pericia  de  Filofofo, 
dos  mais  doutos  da  fua  idade , fe  empenh.iria  a 

bufcar 


e Analytlca^ 


bu(car  razoens  para  nao  fer  liberal  a Pintura , 
fe  ella  em  fi  foílè  mecanica  5 porque  fabia , que 
na5  podia  fundar  elTa  privaçao  de  nobreza,  fe- 
na5  houveílè  o habito  delia  fobre  que  cahiílè 
adita  privaçao. 

Teve  Seneca  juízo  prudencial  de  grande 
doutrina,  e erudição,  econheceo  por  luz  viva 
de  difcurlb  moral , que  todas  as  Leys , todos  os 
Eftatutos , todos  os  Conceitos , e abfolutamen- 
te  tudo , o que  he  legislativo , fe  regem  por  hu- 
ma  jurifprudencia  media,  e racional,  ou  tempe- 
ramento difcreto  entre  a igualdade  particular , 
e a equidade  legal , que  entendendo  os  textos, 
e os  ados  pela  intenção  dos  Legisladores,  ajuf- 
tada  à congruência  dos  tempos,  os  declara ,'  e in- 
terpreta , e os  coflumes  , que  he  o fentido , em 
que  fe  podia  dizer  variavel  a Ley  humana : e a 
ifto  que  chamamos , e fe  chamou  fempre  Epi- 
cheia , ou  interprete  proviíional , e prudencial , 
que  rege  as  coufas  com  variedade  congruente 
à natureza , e à mudança  dos  tempos , e eftadoS) 
fe  fugeita  o entendimento  , doutrinado  para  a 
verdadeira  intelligencia  das  determinações  IcgiC- 
lativas , ou  fejaõ  do  Príncipe  , ou  do  coftume. 

Nifto  leva  a Epicheia  ventagem  aos 


Douto- 


1 4 Carta  Apologética , 

Doutores , pois  ainda  que  fejao  tochas  elegan- 
tes , que  nos  aclarao  os  difcurfos  na  efcuridao 
das  Leys  para  os  cafos  comprehendidos  nellas , 
nos  naõ  inftruem  nos  acontecimentos  naÕ  fym- 
bolizados  neílès  cafos , pois  tem  limites  a alça- 
da intelligencia  genuina  , prudente  , provável , 
e magiftral  dos  Doutores , que  fó  lhes  permit- 
tio  Juftiniano  no  feu  Edido.  Porém  a Epi- 
cheia  com  a jurifdicçaõ  mais  adiantada  de  inf- 
pedora  da  vontade  do  Legislador,  (que  he  a 
alma  da  Ley)  a dá  racional  para  o noílo  gover- 
no , regendo-íe  nao  pelo  que  fe  efcreveo , e coí^ 
tumou  , mas  pelo  que  fe  efcreveria , e coíluma- 
ria  naquelle  tempo  , mudadas  as  circunftancias, 
e alterados  os  fins  , que  íe  attenderao , fe  naõ 
ajuílafièm  a elles  as  determinações , que  entaÕ 
pareciaõ  ajuftadas  porque  raciocina  efta  Mef- 
tra  prudentiífima  de  huns  cafos  fymbolizados 
nos  outros , na  mefma  razaõ , e natureza  , para 
os  comprehender  na  mefma  Ley  •,  e da  contra- 
riedade de  outros  para  os  reger  com  Ley  con- 
traria. E a naõ  íer  affim  perigaria  algumas  ve- 
zes a juftiça  diftributiva , exercitando-fe  a fum- 
ma  injuria  naobfervancia  cega  do  direito  fummo. 

Se  Seneca  alcançaflè  a Ley  da  Graça , ou 

viveílè 


e Analytica,  i j 

viveílè  nelia,  e reproduzido  de  Roma  Centili- 
ca  para  Roma  Catholica  , admiraíTe  o quanto 
em  huma  erao  as  Pinturas  ditièrentes  , do  que 
foraÔ  na  outra , e o como  aquella  inftrucçao , 
ou  lifonja  para  os  vicios  , era  hoje  deteftaçao , 
e abominaçaÔ  delles  : fe  nos  Palacios  Pontifí- 
cios , nos  Templos , nos  Santuários , eem  todas 
as  Gafas  dedicadas  a Deos , e aos  lêus  Santos , 
viílè  era  tudo  Divino , e ornado  com  quadros , 
que  em  fíguras  moraes , e doutrinaes  expreflòens 
nos  reprefentavao  , e enfinavaÔ  a oblérvancia 
dos  mandamentos  da  Igreja , e os  myfterios  da 
noíTa  Fé  : fe  confiderafíe  nos  tres  cultos , que 
entre  os  fumos  do  incenfo  tributamos  nos  Alta- 
res às  Imagens  fagradas  : e fe  em  fím  conhe- 
cefíe  , que  fó  pela  Pintura  alcançavamos  figu- 
rada vifivelmente  a Imagem  de  Deos , e huma 
intelligencia  humana  da  Jeriifalem  triunfante : 
naõ  chamaria  Seneca  aos  Profeííores  deftas  Pin- 
turas , como  definio , ou  com.parou  aos  outros 
Artífices  da  deshoneftidade  \ antes  venerando  a 
perfeição,  a moralidade  , a doutrina , e a impor- 
tância deftas  Imagens  , exaltaria  de  heroica , e 
orthodoxa , a fciencia  da  Pintura , que  iiellas  le 
empregou. 


Se 


i6  Carta  Apologética^ 

Se  olhafle  para  Joíèph , defendendo  com 
fagrada  conftancia  a caílidade : fe  viílê  tantas 
Virgens  merecendo,  em  martyrio  cruento,  as 
palmas  da  virgindade : fe  por  outra  parte , to- 
pando com  a vifta  na  reprefentaçaô  do  deferto, 
achaíle  os  Anacoretas , cultivadores  folitarios , 
e vigilantes  da  candida  flor  da  continência , for- 
talecendo o efpirito  com  as  macerações  do  cor- 
po : ou  fe  em  pequena  taboa  eíliveílè  figurada 
a horrivel  reprefentaçaô  do  Inferno  dos  lafci- 
vos : clamaria  Seneca  com  ajuíladiílimos  epithe- 
tos , que  eftes  Pintores , fim , contrapoílos  aos 
de  Roma  , erao  declamadores  eloquentiífimos 
contra  a fenfualidade , exhortadores  elegantes  pa- 
ra o caminho  da  virtude , e difcretos  diredores 
do  efpirito  da  caílidade. 

Quantas  vezes  íe  commoveria  Seneca , en- 
chendo-fe  de  admiraçao  , e de  doutrina , vendo 
exercitadas  com  artificio  bello , e moral , pelo 
pincel  engenhofo,  e fabio,  o retrato  das  obras  do 
Creador , e da  creatura  , e admiraria  a união  difi 
tributiva  , e fymbolica , das  fciencias , e das  vir- 
tudes, que  alli  fe  comprehenderiáü?  Eíe  Sene- 
ca aiTentava,  que  aFiloíbfia  Eftoica  era  aPrin- 
ceza  das  Artes  liberaes  j porque  inílruhia  com 

os 


e Analjtlca.  ' 17 

os  feus  preceitos  para  os  bons  hábitos , e para  o 
perfeito  conhecimento  das  fciencias  uteis  a vi- 
da dos  coftumes , como  defeftimaria  a Pintura , 
que  em  melhores  figuras  nos  moílrava  nao  fó  a 
inftrucçaÕ  para  as  fciencias , mas  hum  perfeito 
congregado  delias,  e tanto  mais  attradivo,  quan- 
to os  olhos  nos  penetrao  melhor , que  os  ouvi- 
dos. 

Nefla  Filoíbíia  Eftoica , que  tanto  vene- 
rou eíle  Profeííõr  delia  , nao  confentiria  elle, 
que  perdeíle  a fciencia  o predicado  de  nobre 
pelo  máo  ufo,  e prevaricaçaõ  de  algum  Filoíb- 
fo  ; e fempre  a fciencia  feria  ingênua  , ainda 
que  oProfeflbr  deliraflè  dafua  doutrina.  Por- 
que os  Romanos  foraô  tranfgreflbres  das  fuas 
Leys  , nao  deixarao  ellas  de  ferem  virtuofas: 
porque  o Theologo  nao  votou  bem  ; o Medi- 
co errou  a cura  5 o Mufico  cantou  fem  voz , 
nem  compaflb  j o Juiz  julgou  injuílamente  ; e 
o Advogado  prevaricou  no  officio , nao  pafíã- 
Taô  de  liberaes  para  mechanicas  a Theologia, 
a Medicina  , a Mufica , a Jurifprudencia  , e a 
Advocacia. 

Nao  mereceo  Seneca  (por  deftinaçao  da 
providencia  Divina ) nafcer  com  a luz  da  Ley 

■ C da 


i8 


Curta  /ipologetica , 

da  Graça ; e íe  aquelle  nobiliíllmo  entendimen- 
to foííè  Catholico,  confeíTaria,  que  a Jerarquia, 
em  que  efteve  Lucifer , nao  perdeo  pela  fober- 
ba  , abatimento , e peccado  delle  , a exaltaçao, 
e a virtude  de  Angélica  j nem  que  a natureza 
humana  deixou  de  fer  a obra  mais  perfeita  da 
maõ  de  Deos  pela  culpa  peíToal  da  primeira  crea- 
tura,  E fe  eu  agora  me  embaraçaílè  com  os 
Pfeudo-Senecas , lhes  lembraria , que  por  have- 
rem Antipapas  , Papas  verdadeiros  , ainda  que 
máos  Pontiíices  , Principes  tyrannos,  Sacerdo- 
tes homicidas , Religioíbs  adúlteros  5 nao  per- 
deo a Tiara  Pontifícia  a prerogativa  de  fan- 
tifiima,  dejuftiífimo  o poder  dos  Monarcas,  e 
de  perfeito  o Sacerdócio , e o eftado  Monacal. 

iMas  para  que  arrebatou  até  aqui  o diícur- 
fo  nefla  Apologia  aojuizo,  e memória  de  Se- 
neca  , fe  elle  nao  legislou  contra  a Pintura , e 
fó  diílè , que  os  Artífices  no  máo  ufo  delia  nao 
fofíèm  liberaes , nao  por  Profeflbres,  mas  como 
Pintores  immodeftos  , que  naquellas  formas  def- 
afiavao  , e lifongeavao  a incontinência  ? Por 
iflb , para  mayor  credito  de  Seneca  , e da  glo- 
ria da  Pintura , expendi  com  verdade  de  pura 
intelligencia  a Epiftola  88  , e o feu  genuino  con; 

ceito 


e Analyúcá»  i p 

ceito  para  delle  me  valer  em  benefício  da  Pin- 
tura , e moftrar , que  errarao  os  Doutores , que 
a abaterao , fundados  na  authoridade  defte  gran- 
de homem , e erraráo  daqui  em  diante , os  que 
guiados  pelos  fundamentos  deílès  Doutores  fo- 
rem parciaes  contra  a nobreza  defta  ingênua  fci* 
encia. 

Nao  digo  (nem  a tanto  me  impelle  oamor, 
e a veneraçaõ ) que  confiderada  a Pintura  por 
modo  concretivo , fao  nobres  os  Pintores  poli- 
ticamente , fó  porque  faÕ  Pintores  j porque  co- 
nheço, que  os  indoutos , os  abjedos,  os  merce- 
nários de  obras  fordidas , faô  indignos  do  Privi- 
legio concedido  à Arte , e aos  peritos , pruden- 
tes, confpicuos  , e graves  nella  5 affim  como 
qualquer  outro  profelTor  nefcio , e incapaz  nao 
participa  da  immunidade  da  nobreza , e das  pre- 
rogativas  concedidas  à fciencia.  Fallo  abfíradi- 
vamente  da  Pintura , que  nobilita  aos  Artifíces 
theoricos , e práticos  nella  , e dos  Pintores  def- 
ta  esfera , e qualidade , digo , que  naô  íào , nem 
devem  fer  mecânicos  ; mas  nobres  para  todos 
os  empregos  , e predicamentos  proprios , dos 
que  profeíiàõ  huma  Arte  liberal.  Quero  dizer, 
que  a Pintura , em  quanto  fciencia , he  Arte  no- 

C ii  biliífi- 


2 ò Carta  Apologética , 

biliílima,  e que  faô  nobres  osProfeflòres,  que 
a exercitaõ  dignamente. 

Toda  a Arte  liberal  he  nobre : a Pintura 
he  Arte  liberal  , logo  he  nobre.  Por  Direito  " 
Civil  he  liberal  toda  a Arte , que  os  Gregos  ef- 
timavao  por  fciencia  liberal.  A Pintura  entre 
os  Gregos  era  a primeira  fciencia  entre  as  libe- 
raes , logo  he  Arte  liberal.  Aquella  he  a Arte 
liberal  no  conceito  univerfal  dos  Juriíconfultos, 
e dos  Doutores , que  he  capaz  do  varao  livre , 
e que  lhe  dá  preceitos  para  fer  forte , prudente, 
e fabio  nas  fuas  acções.  A Pintura  de  tudo  if- 
to  he  capaz , logo  he  nobre. 

Com  eíles  tres  fyllogifmos,  (deixados  ou- 
tros ) dos  quaes  o fegundo , e terceiro  fao  pro- 
vas evidentes  da  menor  do  primeiro , argumen- 
tarey  agora  contra  os  Antagoniftas  da  ingenui- 
dade da  Pintura.  Na5  me  negaráô  como  ele- 
mento certo , que  as  Artes  liberaes  fa5  nobres; 
mas  como  podem  negar  , que  a Pintura  feja 
Arte  liberal , para  que  a confequencia  os  nao 
conclua , anticipey  o fegundo  fyllogifmo  , cuja 
concludencia  ou  fe  ha  de  confeílàr  , ou  negar- 
fe  a verdade  da  dita  Hiftoria  Grega , e a certe- 
za , que  nefte  ponto  dao  os  Hiíloriadores  anti- 
gos, 


e Jmlytíca.  1 1 

gos,  que  he  conflante  nosjiiriílas , que  tratao 
defta  queftaò  j e fó  aíTim , negado  eíle  principio, 
poderá  nao  concluir  o argumento , que  fuppof- 
ta  a verdade  das  premiílàs  da  mayor , e da  me- 
nor , nao  tem  repofta  concludente  j porque  o fer 
Arte  liberal  tudo  o que  os  Gregos  admittiao  por 
difciplina  liberal , he  definição  exprefià , fem  con- 
traditor,  deUlpiano  naL. ^ cíevar.  & ex- 
traord.  ccgmt.  nas  palavras  já  tranfcritas ; e eíli- 
marem  os  Gregos  a Pintura , como  a íciencia 
principal  entre  as  liberaes , he  elemento  da  Hifi 
toria , e o certificaõ  os  dous  Hiftoriadores , que 
tranfcrevi , deixados  muitos , que  nao  refiro. 

Poderfe-ha  recorrer  a que  os  Romanos  ao 
depois  fe  apartarao  da  generalidade  da  dita  de- 
finição , admittindo  os  íervos  a Pintores , fendo 
prohibidos  pelo  Edido  geral  dos  Gregos.  Mas 
a efiès  fervos  nunca  deraó  os  Romanos  a gra- 
duaçao  , e os  privilégios  concedidos  ao  Pintor 
ingênuo  , falvando  com  efte  abatimento , prati- 
cado nos  fervos , a ingenuidade  mandada  obfer- 
var  no  dito  Edido  aos  Profefibres  da  Pintura  li- 
vres , e ingênuos  j e por  ifib  , que  exceptuarao 
os  íêrvos  para  os  gráos , e diflinçoes  concedidas 
aos  varoens  livres  , eílabelecerao  nefta  excep- 

çao 


22 


Cartà  Apologética.) 

çao  regra  firme  de  nobreza  a refpeito  delles. 

Quem  for  erudito  na  Hiftoria  Romana  íà* 
berá , que  aos  fervos  nao  era  prohibido  apren- 
der , e exercitar  as  Artes  liberaes , ainda  que  nao 
coníeguiílèm  a nobreza  , e todas  as  prerogati- 
vas  concedidas  por  ellas  aos  varoens  ingênuos , 
porque  havia  fervos  Médicos,  Filofofos , e Poe- 
tas , que  eraô  Profeílõres  deftas  Artes , que  faó 
liberaes  , e fummamente  eftimados  nelias  na- 
quelles  felices  feculos , em  que  a eftimaçao  das 
gentes  andava  vinculada  à fabedoria  peflòal.  E 
fe  eu  fizera  aqui  catalogo  de  grande  parte  dos 
fervos , que  por  Médicos , Pintores , Filolbfos> 
Poetas , e pela  fciencia  de  outras  Artes  libera- 
liífimas  fubirao  a alturas  de  diftinçao  politica, 
baftaria  dizer  , que  Platao  dedicou  a Fedon  o 
livro  Divino  da  immortalidade  da  alma , e que 
Menipo , Pompilio  , Perfeu , Mys , e o grande 
Epiíleto , e os  mais  que  nomeaÕ  Aulo  Gelio , 
Macrobio  , e Tiraquello  , forao  de  condiçaS 
íervil , mas  de  doutrina  tao  nobre , que  mere- 
cerão juftamente  o refpeito  , e veneraçaô  da- 
quelles  feculos ; e Seneca  na  Epiftola  47  aflèn- 
ta,  que  os  fervos  erao  capazes  de  toda  a arte, 
e doutrina , e por  efta  razao  refpondendo  à du- 


e Ãnalytica.  2 3 

vida  com  que  lido  , diz  Tiraquello  as  palavras 
feguintes : Nec  fi  fervi  plurimi  medicinam  ex- 
ercuermt , continuo  fequitur  eam  fervilem  eje 
artem,  C5*  illiberalem.  JSam  tametft  artes  libe- 
rales  diâta  fint , qiiod  liberis  digna  fwt  : tamen 
fervos  d fe  non  rejiciunt  quando  , O*  ii  liberali- 
bus  Jludiis  erudiri  pojjiint  , ut  prohat  textus  in 
Li.  ult.  in  dn.  f.  de  JEdi/it.  edióí.  Multosque  Jer- 
vos  legimus  ad  fupremiim  ujqiie  Vhilofophia , O* 
aliaram  nobilijftmarum  artium  fajligmm  eveóíos 
fiiife. 

Agora  fe  entenderá  ajuíladamente  a clau-, 
fula  das  palavras  : Si  modo  ingenui  Junt  da 
L.  Archiatros  8.  Cod.  de  Metat.  O*  Epidemic. 
Ub.i2.,  de  que  logo  me  lembrarey , nas  quaes 
os  Emperadores  Theodofio,  e Valente  , diflin- 
guiraô  os  Pintores  ingênuos  dos  fervís , ou  por- 
que feriao  poucos  os  eícravos , que  fe  applica- 
vaõ  a efta  fciencia , ou  para  que  foflèm  menos,' 
ou  nenhuns  , vendo-fe  privados  da  honra  con- 
cedida aos  ingênuos , porque  íèmpre  os  Empe- 
radores quizeraô  falvar  a ingenuidade  do  Edi- 
do  dos  Gregos  nefte  ponto. 

Com  efta  advertência  pondero  , que  ne- 
nhuma das  Leys  apontadas  nos  Doutores  dá 

opinião 


24  Carta  Apologética 

opinião  negativa  contra  os  Pintores  , falia  da 
Pintura  em  quanto  íciencia , dizendo , que  naô 
be  ingénua.  AL.  Hte  oper^  25.^  de  Oper. 
libertar.  , em  quanto  diz,  que  o liberto  deve 
preftar  ao  Patrono  as  obras  da  Pintura  , logo 
declara  , que  naô  he  pela  natureza  da  manu- 
miílaô , mas  pelo  contrato , que  fez  com  o Pa- 
trono , e por  iílb  devendo  as  obfequiaes  pela 
Ley  natural  em  gratificaçaÔ  do  beneficio  da  li- 
berdade , fó  deve  as  obras  da  Pintura  pela  con- 
venção do  contrato  j e daqui  nem  por  argumen- 
to remoto  fe  fegue  , qiie  a Pintura , em  quanto 
fciencia  , feja  Fabril , porque  o fervo  ( que  pe- 
la difciplina  Romana  podia  aprender  as  artes  li- 
beraes ) para  coníeguir  a liberdade  prometteo 
pintar  para  feu  Senhor  , naÔ  fe  podendo  inferir 
do  Pintor  fervo  para  o Pintor  ingénuo. 

A Ley  Quoties  24  do  mefmo  titulo  fó 
explica  o como  , e o quando  fe  devem  eílãs 
obras  em  obfervancia  da  eftipulaçaô  contrata- 
da entre  o fervo  , e o Senhor.  A Ley  6'/  non 
Jbrtem  26  , Libertus  \2.  jF.  de  Condióí.  inde- 
bit.  nas  palavras  veluti  piãorias , ufa  de  termo 
explicativo  da  paga  , e naô  comprehenfivo  de 
obras  Fabris , como  bem  explica  a Gloílà.  A 


e Analytica,  2 $ 

Ley  I.  Coâ.  ãeexcufat.  Artific.  porque  entre 
as  peílòas , que  fao  ifentas  dos  tributos  peflõaes 
incluio  os  Pintores , nao  diílè , que  elles  erao 
mechanicos , aííim  como  por  ifto  o naÕ  erao  os 
Médicos,  coníiderados  juntamente  no  Privilegio 
concedido  na  dita  Ley. 

Na  mefma  forma  a Ley  Archiatros  já  ci- 
tada , da  qual  pervertida  a verdade  da  fua  intel- 
ligencia , quizeraô  alguns  Doutores  deduzir  ar- 
gumento contra  os  Pintores , derivado  da  difiè- 
rença,  efeparaçao  dos  nomes:  Archiatros  nof- 
tri  Palatii , (diíTerao  os  Emperadores ) nec  non 
Ur  bis  RontíC , Magijlros  litterarum  pro  m- 
cejjanis , Artibus , vel  liberalibits  di/ciplinis , nec 
non  Píóíiira  profejjores  ( fi  modo  ingemii  fiint ) 
bojpitali  molejlia  (juoad  vivent , Uberari  pr<eci- 
pmiis.  Os  Médicos  do  fagrado  Palacio , e os 
da  Cidade  de  Roma  , os  Meftres  das  Artes  li- 
beraes , e os  Profeflbres  da  Pintura , na5  efcra- 
vos,  em  quanto  viverem , mandamos , fejao  iíên- 
tos  de  Hofpedes , e Soldados , e de  Apofenta- 
doria  do  Principe.  E quem  naô  vê  o quanto  he 
exuberante  o Privilegio  concedido  nefta  Ley  à 
Pintura , comprehendendo  os  Profeflbres  ingê- 
nuos delia  com  os  Protomedicos , (dos  quaes  diz 

D Bar- 


2 6 Curta  apologética , 

Bartolo  na  L,  iinica  , Cod.  de  Comítíh.  ü*  Ar-- 
chiatrh , tinhao  a dignidade  Ducal)  e aos  Mef- 
tres  das  letras , e Artes  liberaes ; mas,  bailou  di- 
zer o texto : 'Hec  non  Pióíura  projieffores  , para 
fe  argumentar , que  fe  elles  foílèm  nobres  , fe 
incluiriao  nas  palavras  vel  Hberalibus  di/ciptinis, 
e efcu  fadas  feriaÕ  as  outras  , nec  non  Piôlurte 
profejjores  , que  eílao  denotando  lerem  mecha- 
nicos  , porque  o texto  os  tratou  , e diftinguio 
feparados  dos  Profeílòres  das  ditas  Artes,  o que 
nao  feria  aííim,  fe  nellas  foílèm  comprehendi- 
dos. 

Eíle  he  o argumento  mais  forte , que  fe 
efcreve  contra  a Pintura  j e quanta  debilidade 
terão  os  outros  fe  eíle  he  taõ  fraco  , fendo  o 
mais  valente  entre  elles?  Eíle  texto,  que  bem 
entendido , he  capital  a favor  da  Pintura  ingé- 
nua , o allegao  em  primeiro  lugar  os  Doutores , 
que  a defendem  5 e eu  occultando  com  reveren- 
cia o nome  deílès  Antagoniílas , hey  de  ponde- 
rar contra  elles  os  argumentos , que  fe  formão 
deíle  texto , e que  à ponta  da  penna , me  minif- 
tra  o difcurfo.  Nefte  texto  fe  tratao  diníliníla- 
mente  os  Médicos , e Protomedicos  pelos  feus 
nomes:  Archiatros  nojiri  Palütii , nec  non  Vr~ 

bis 


e Analytica.  2 y 

hh  Rom^e^  e fe  elles  nao  deixaÕ  de  fer  nobres 
eftando  com  feparaçao  das  palavras  ve/  lihera- 
libus  di/i,iplms , como  nao  lèrao  nobres  os  Pin- 
tores , que  no  nec  non  RiSlur<e  pr^ejfores  eílao 
com  igual  feparaçao  ? A raza5  de  diffèrença  íê- 
rá  difficilima  de  affinarfe.  Já  fe  nao  deve  du- 
vidar, que  os  Médicos  faô  nobres  5 foíle  embo- 
ra difputada  a fua  nobreza  nos  feculos  paliados, 
como  lemos  nos  Efcritores  contra  ella:  logo  fe 
os  Médicos  fícaÔ  nobres  eftando  nomeados  por 
feu  nome  appellativo  naquelle  texto  fóra  das 
ditas  palavras  vel  liberalibus  dtJcipHtns  , tam- 
bém os  Pintores  ingênuos , que  igualmente  fe 
nomeao , ferao  nobres , fem  lhes  obftar  a gene- 
ralidade dasmefmas  palavras. 

Gotofredo  na  explicação  defte  texto  ver- 
te com  admiravel  intelligencia  na  particula  iit , 
a conjunção  nec  non , para  que  as  palavras  dos 
Emperadores  fe  entendaÕ , que  aquellas  preemi- 
nências , e ifençoes  fe  davao  às  peíToas  referi- 
das , para  que  enfinaíTem  a adolefcencia  Ro- 
mana , e a induftriaflèm  nas  Artes  liberaes , co- 
mo o faziao  os  Pintores : Ametatis  funt  iminu- 
ms  , tantisper  dum  viviint  Archiatri  Palatii ^ 
O*  Urbis  Rontíe , Mugijiri  litterarum  , pro  vere 

D ii  necef- 


2 8 Caríâ  Apologética^ 

neceJfarUs , C3*  Uberalibiis  di/cipUnis , ut  Fiôiura 
pr^ejfores  fi  modo , ingemii  funt.  Porque  fe  en- 
íinem  ( diz  Dionyfio  Gotfredo)  as  difciplinas, 
que  l'aÕ  verdadeiramente  liberaes  como  os  Pro- 
feílõres  da  Pintura  : Fro  vere  liberalibus  difcU 
plinis  , ut  Píãurte  profefores  5 conílituindo  a 
eíles  Profeflbres  nao  íb  nobres , mas  por  exem* 
pio  (nefte  texto)  das  Artes,  que  faô  precifas, 
e liberaes  verdadeiramente. 

Nem  o contrario  pode  fuílentaríe , ufan- 
do  os  Emperadores  das  palavras  Fiãura  prafef- 
Jbres  , que  na  pureza  do  lentido  jurídico , da  la- 
tinidade  Romana , e dos  Jurifconfultos , fignifí- 
cao  Profeílbr  de  fciencia , e Arte  liberal : Inde 
prcfejjores , ^ui  artes  liberales  profitentur , diz 
Briííònio  , e com  muitos  exemplos  Calepino , 
Grutero,  ePlinio  Junior , e poriííb  no  corpo 
de  Direito  ha  titulos  inteiros  no  Cod.  Qiii  ata- 
te  , vel  profejjione  Je  excuf.  lib.  1 o.  C?*  de  Fro- 
JeJJorib.  Medie,  no  mefmo  livro , e neftes  ti- 
tulos , textos  formaes , como  faõ  ( deixados  ou- 
tros ) a L.  1.  Cod.  Qui  atate ; cum  vos  affirme- 
tis  liberalibus  /hidiis  operam  dare  maxime  cir- 
ca  jiiris  profeffionem , L.  Médicos , Cod.  de  Fro- 
. O"  Medie.  Ç?*  profe^ores  aiios  litterarum. 

L.  final. 


e Amlytica.  2 p 

L.  iinài.  eod.  tit.  Hac  cutem  > O*  prcjejjoribus 
memoratis  j e admiravelmente  na  L.  \.JF.  de  var^ 
C?*  extraordin.  cognitionih.  e efta  foy  fempre  a 
fraze  pela  qual  os  Emperadores,  e os  ditos  Ju- 
rifconfultos  explicaraõ  as  fciencias  liberaes , cha- 
mando Profeílores  às  peílbas , que  as  exercita- 
vao  5 e o argumento  deduzido  da  propriedade 
juridica  da  palavra  tem  grande  refpeito  em  Di- 
reito. 

Nao  deroga  a Pintura  à Nobreza  como 
as  Artes  fedentarias , e fordidas  coftumao  preju- 
dicar; porque  o Pintor,  nobre  por  origem,  no- 
bre fica  fendo  Pintor:  logo  a Pintura  nao  he 
mechanica  em  íi.  Deixo  a intelligencia  com- 
mua  , que  a diverfidade  do  nome  fó  procede 
quando  as  palavras  fe  nao  unem,  oufymbolizaô 
na  natureza  da  coufa , de  que  ellas  trataõ  pelo 
texto  na  L,  Si  (juis  úlium  3.  Cod.  de  íiber.  pra- 
terit.  cap.  Ea  qiue  extra  defimon.  cap.  Intelli- 
gentia , cap.  Propterea  extra  de  verbor.  fígni- 
ücat.  e omittindo  as  mais , que  aqui  occorrem, 
me  lembrarey  de  tres  ponderações  fomente.  A 
primeira,  e vigorofiffima  nos  preceitos  da  fcien- 
cia  legal , que  fe  a Ley  quizefle , que  a Pintura 
nao  foíTe  ingênua,  tendo  princípios,  eprogref- 


3 o Carta  Apologética , 

fos  noblliííímos , facil  lhe  era  declarallo ; e co- 
mo o nao  exprimio  , ficou  ella  íendo  liberal. 
A fegunda  , que  fendo  os  Pintores  Cidadãos 
Romanos  , por  Julio  Cefar,  como  ProfeíTores 
das  Artes  liberaes , às  quaes  participou  as  hon- 
ras , e prerogativas  concedidas  aos  ditos  Cida- 
dãos , que  nao  era5  tao  fáceis  de  confeguir , co- 
mo o forao  no  Império  de  Antonino , Pio , e de 
Juíliniano  , havia  fer  a Pintura  liberal  neceílà- 
riamente.  A terceira  , porque  além  dos  Dou- 
tores antigos , e de  grande  veneraçaô  , chama- 
rem íèmpre  à Pintura  nobre  como  Arte  liberal, 
de  que  fe  efcreveria  catalogo  extenfiífimo , fe 
fofie  importante  , he  ella  ingênua  confiderada 
no  feu  principio , nas  fuas  virtudes , no  feu  pro- 
greflb,  e em  todos  os  Direitos  efcritos,  aífim 
fagrados , como  profanos , e politicos  5 e tantas 
prerogativas , e excellencias  ajuftadas  entre  fi, 
nenhuma  Arte  liberal , e íciencia  confeguio  com 
tanta  naturalidade  , e tanto  merecimento , co- 
mo a Pintura. 

Perdoe-me  agora  o Direito  Civil , que  eu 
o reconvenha  , já  que  nelle  fe  bufcao  Leys  pa- 
ra abater  efta  fciencia.  No  Império  Grego,  ha- 
vendo tanta  fabedoria  , eftava  em  tao  pouca 

reputa- 


e AnaJytica.  3 i 

reputaçaÔ  a fciencia  Civil , que  fó  a aprendia5 
peflbas  humildes  , e por  ilTò  os  Jurifconfultos 
Gregos  foraô  homens  vis  no  mefmo  tempo, 
em  que  os  Pintores  eraÕ  peflbas  nobres.  Segui- 
rao-fe  os  feculos  Romanos , nos  quaes  osjurifl 
confultos  forao  na  mayor  parte  V aroens  amplií^ 
fimos , e os  Mancebos  illuftres , que  afpiravao 
a Magiftrados  , e dignidades , eíludavaõ  a fci- 
encia legal  , cujos  rudimentos , ou  principios 
vieraô  de  Athenas , Cidade  de  Grécia , nas  dez 
Taboas , que  com  as  duas , que  os  dez  Varoens 
Romanos  lhes  accrefcentarao  , conftituirao-  a 
primeira  fonte  de  Direito  Civil  5 e venerarao 
tanto  os  Romanos  a política , e difciplina  Gre- 
ga , que  já  mais  a oifenderaÔ , decretando , que 
em  Roma  , e no  feu  Império  foflè  nobre  tudo 
o que  nos  dos  Gregos  era , ou  tinha  fido  libe- 
ral. 

Daqui  infiro , que  antes  de  haver  Direito 
Civil  Romano , já  a Pintura  era  ingênua ; e quan- 
do a fciencia  legal  era  vil  em  Grécia , a Pintu- 
ra era  nobiliflima  : logo  tem  a Pintura  princi- 
pio mais  ncbre  , e antigo  , que  a Jurifprudencia 
Romana.  Os  Romanos  Jurifconfultos  foraô 
fabios,  eloquentiffimos , Meílres  das  fciencias, 

e fum- 


3 2 Carta  Àpologetica , 

e fummos  eílimadores  delias : os  feus  coníèlhos 
fe  região  pelos  fins  honeftos  dascoufas,  e pelas 
diffiniçoes  , e etymologias : eflimaraõ  grande- 
mente  as  Artes  liberaes , que  naô  claufularao  a 
termo , e nome  certos , porque  tiverao  por  in- 
génuo tudo  o que  os  Gregos  eílimaraô  como 
liberal  5 e naÔ  he  crivei , que  defcobrindo  na 
Pintura  todas  as  virtudes  moraes , que  ornavaÔ 
as  fciencias , que  tanto  eílimaraô , e privilegia- 
rão , abateílèm  eíla  Arte  , que  he  compendio 
das  melhores , e principaes ; pois  naô  poderia  o 
engenho  Romano  defcobrir  artificio,  com  o qual 
de  materiaes  puros  , e nobiliffimos  fe  formaííè 
huma  imagem  impura , e fem  nobreza : venho 
a dizer , que  de  fciencias  ingénuas  íè  compuzef- 
fe  outra , que  foílè  mechanica. 

Todas  as  operações  do  entendimento  mo- 
ral , e fabio  faÕ  nobres , e também  o faõ  as  em 
que  o corpo  tem  parte  menor , que  o entendi- 
mento : nelle  fe  geraô  as  fciencias , e nelle  naf 
ce  afciencia  da  Pintura.  Produzem-fe  dojui- 
zo , e do  difcurfo  as  operações  intelleólivas , e 
deíle  principio  ftô  produzidas  as  invenções  da 
Pintura.  As  acções  moraes  , e os  fins  decen- 
tes , que  o entendimento  aconfelha  pelo  meyo 

das 


eAnalytlcà,  35 

das  fdencias  , tem  a Pintura  por  objedo  , e 
doutrina ; e tudo  o fcientifico  , e doutrinal  nas 
Artes  liberaes  para  ennobrecer , e inftruir  o en- 
tendimento , para  vida  fábia , e regular , defem» 
penha  a Pintura  com  viftoío  exercicio.  E como 
reputariao  os  Romanos  por  illiberal  a Pintura  ^ 
íè  nella  tem  o juizo  mayor  emprego , que  o cor- 
po , e tudo  o que  conílitue  liberaes  as  outras 
fciencias , íè  executa  na  Pintura? 

Os  Romanos  forao  eftimadores , e obíèr- 
vantes  da  Politica , inftruidos  nasHiílorias : (que 
pelo  preceito  do  Emperador  tanto  he  precifa  pa- 
ra os  profeflòres  de  Direito)  fabiaó  o que  paíla- 
ra  nos  lèculos  dos  Gregos , cuja  doutrina  imita- 
vaÕ  na  mayor  parte  , e muito  melhor  eftavao 
certos  na  fua  Hiftoria  Romana , pela  qual  co- 
nheciao , que  o filho  terceiro , e legitimo  doíèu 
fegundo  Rey , fora  Pintor , e que  efta  fciencia , 
e o feu  appellido  fe  coníèrvara  nos  feus  deícen- 
dentes  por  alguns  lèculos , fendo  Confules , e 
Embaixadores.  Nao  ignoravaô  , que  os  Em- 
peradores  Conftantino , Adriano , Marco  An- 
tonio  oFilofofo , Alexandre  Severo , Nero  Va- 
lentiniano  , Gordiano  , Elio  Aureliano  , Mar- 
co Aurélio,  Auguílo,  Tiberio,  ejuftiniano  ex- 

E ercita 


3 4 Apologética , 

ercitarao  com  grande  applicaçao  a Pintura,  e 
a eílimavao  em  gráo  excellente , unindo  à gloria 
de  Pintores , as  foberanias  de  Monarcas  , e nao 
íendo  verofimel  , que  legislaílèm  contra  ella, 
he  natural , que  a intitulaílèm  fciencia  Impe- 
rial , alludindo  aos  Emperadores , que  a pratica- 
rao.  E íe  para  fer  nobre  o Medico  bailava  to- 
mar o pulfo  ao  Rey , nao  haviao  tratar  de  me- 
cânico o Pincel , andando  exercitado  na  maô 
de  tantos , e taes  Emperadores. 

Agora  me  torno  a confirmar  no  penfameii- 
to , de  que  por  ifib  em  todo  o Direito  Civil  fe- 
nao  lê  texto  pofitivo  contra  a Pintura ; porque 
naquelles  feculos  foy  reputada  ingênua  pelas  Ar- 
tes liberaes , que  incluía  em  fi , e pela  qualida- 
de das  peílòas , que  a exercitaraÕ  5 e na  verda- 
de , que  lançando  a viíla  à Hiíloria  defta  Arte, 
fenao  defcobre  nella  motivo , que  divirta  o juí- 
zo deíle  penfamento.  Se  lhe  bufcamos  a no- 
breza pela  antiguidade,  baila  dizer  comPlinio, 
que  os  Egypcios  fe  jaêbavao  de  fer  nelles  inven- 
tada a Pintura , íeis  mil  annos  antes  que  pailàíle 
para  Greda : fe  a invenção  , todos  concordao, 
que  foy  tirada,  ou  perfilada  pela  fombra  do  ho- 
mem , créatura  mais  nobre , e perfeita  da  maô 


e Analytlca,  3 j 

de  Deos : fe  as  virtudes , todas  faÔ  de  entendi- 
mento, e de  efpirito : íê  a fciencia , exercita  ella 
muitas  das  liberaes  com  viftoía , e vifivel  perfei- 
ção : fe  o predicamento , foy  o mais  nobre , que 
no  Mundo  político , e em  todos  os  feculos  con- 
feguio  outra  fciencia , já  na  eftimaçaÕ , porque 
a dos  Pintores  infignes  foy  emgráo  fublime:  já 
na  immunidade , pois  a cafa , e a peíToa  de  mui- 
tos forao  reípeitadas  ; já  nos  talentos , porque 
he  incrível , e fufpeitofo  o que  efcreve  Plinio , 
dos  que  íe  difpendiaÕ  nas  Pinturas  j e já  na  par- 
ticipação das  excellencias  pelos  muitos  Prínci- 
pes , que  a exercitarão. 

Cediao  à Eícritura , o Poema , a Hiíloria, 
a Oraçaõ  Rhetorica  ao  pergaminho  , e papel 
alheyo , em  que  feefcreviaô  nao  fó  com  tinta, 
mas  ainda  que  foílè  com  letras  de  ouro  5 e o 
pano , pofto  que  precioíb , e a taboa , ainda  fen- 
do de  prata  , cedia  à Pintura  fcientifica  , que 
nelles  fe  formou  , reprovando  Juftiniano  para 
eílè  fim  a opinião  de  Paulo.  Comprehendiao- 
fe  os  livros  de  divertimento  do  Teftador , mas 
nao  as  Pinturas , no  legado , que  elle  deixou  do 
campo , nem  , legando-fe  a prata  , o que  nelia 
eílava  pintado  5 porque  a matéria  fe  transforma- 

E ii  va 


3 6 CxfU  Apologética  9 

va  na  Pintura  como  parte  mais  nobre , que  ella.' 
Cicero,  que  foy  peritiííimo  em  Direito  Civil , e 
nas  letras , e fciencias , querendo  exaltar  o Poe- 
ma de  Homero  a gráo  excellente  , diílè  , que 
era  Pintura,  enao  Poeíia,  aflèmando  naÔ  po- 
dia ter  melhor  elogio,  para  exaltar  aquellarara 
Obra , que  transformalla  de  Poema  em  Pintu- 
ra. 

Aflim  he:  porém  o coílume  doPaiz , que 
os  Doutores  mandaô  attender , tem  eftabelecido 
direito  , que  prevalece  a eftes  difcurfos  5 mas 
porque  eu  hey  de  clamar  contra  efte  coílume , 
combati  até  aqui  os  fundamentos  delle.  Aflim 
he , que  he  coílume , mas  barbaro , e reprehen- 
íivel  entre  nós , por  iílb  mefmo , que  fó  nós  o 
praticamos  contra  a obíèrvancia  dos  Impérios 
polidos,  e a eílimaçao  dos  may ores,  e melho- 
res homens  em  todos  os  feculos : e he  para  laf- 
timar,  que  fendo  Portugal  elegante  cultivador, 
e propagador  das  fciencias , e bellas  letras , nao 
tenha  deílerrado  eíle  coílume  , que  aflim  íè 
introduzio  , nao  por  geral  confentimento  dos 
feus  Doutores , mas  de  alguns  , e que  tanto  fe 
aparta  dos  preceitos  Catholicos  , e Políticos , 
a que  devia  fugeitarfe : e quanto  receyo , que  ef-, 

te 


e Jnalytica,  3 7 

te  vitupério , que  fe  pratica  com  a Pintura , fe 
approprie  com  juíliça  na  noílà  reputaçaô , e que 
por  deíèftimadores  defta  Arte  fejamos  barbaros 
no  conceito  dos  Varoens  eruditos!  Quem  ler, 
que  entre  nós  fe  abate  a Pintura  generofa,  quan- 
do alíim  fe  humilhaÔ  os  íèus  Artifíces  , póde 
dizer , que  ignoramos  as  virtudes , ou  defpreza- 
mos  as  fciencias  , que  faÔ  infeparaveis  da  Pin- 
tura virtuofa.  E que  reíponderemos  em  defen- 
,faô  donoílb  credito,  fenos  criticarem  , de  que 
em  Portugal  fe  defauthoriza  a Arte , que  fby 
digna  da  applicaçao  de  Pontifices , de  Cardeaes, 
de  Emperadores , de  Reys , de  Arcebifpos , de 
Bifpos  , de  Príncipes  , de  Princezas , de  Du- 
ques, deMarquezes,  edasmayores  peflbas  de 
ambos  os  fexos , e de  ambos  os  eftados  Ecclefi- 
allicos,  e Seculares? 

Como  nos  juftifícaremos , fe  formos  efira* 
nhados  de  nao  eílimarmos  diflinólamente  a fci- 
encia , que  elevou  a tantos  Pintores  aos  empre- 
gos mais  excelíbs  da  honra , huns  merecendo  o 
caraâier  de  Embaixadores , muitos  a diflinçao 
deCavalleiros  armados  pelas  íàgradas  mãos  das 
Mageftades , alguns  os  litulos  de  Grandes  do 
Reyno,  e de  Gentis- homens  de  Principes , e to* 


38  Carta  Apologética^ 

dos  as  eftimaçÔes  mayores  da  Republica  ? E if. 
to  porque  nao  amamos , o que  devia  fer  ama- 
do no  mefmo  tempo , em  que  daõ  brado  no 
Mundo  as  vozes  das  noílàs  applicaçoes , e do 
apreço , e cultura  , que  fazemos  das  fciencias ! 
Quereremos  fer  fabios  defeílímando  a fciencia, 
que  toda  he  obra  do  entendimento  ? Seremos  ge- 
nerofos  períèguindo  a Arte , que  he  congregado 
de  virtudes  generofas  ? Veneraremos  , e adora- 
remos as  Imagens , e as  obras , e defeftimaremos 
a fciencia  , e a mao  , que  as  produzio , porque 
pervertida  a ordem  de  geraçaÕ  politica , he  no- 
bre entre  nós  o produzido , e mechanico  o pro- 
ducente.  As  producçoes  fe  elevaraÔ  nos  Tem- 
plos , nos  Altares  , nos  Falados  , nas  galarias , 
nos  gabinetes , e nos  fitios  do  decoro  mais  íu- 
blime  ; mas  os  producentes  fera5  fumergidos 
no  triftiílimo  abatimento  da  mechanica?  Valeria 
huma  Pintura  preço  tal , que  nao  valha  a ma- 
yor  Livraria , e andará  em  cabeça  de  Morga- 
do a Pintura  : porém  a fciencia  fe  naõ  livrará 
da  claílè  da  plebe  , em  que  anda  vinculada ! 

Forciííimos  paradoxos , e delirios,  echimi- 
ca  extravagante  do  engenho  , com  que  de  ma- 
teriaes  puros , e nobiliífimos  fe  forja  hum  mix- 

to 


e Analyúca,  3 p 

to  impuro,  e fem  nobreza ! Direy , que  nao he 
ifto  ufo  , mas  abufo  em  Portugal  5 credito, 
mas  deícredito  do  Paiz , digno  de  coftumes  mais 
doutos,  epoliticos:  direy,  que  naÕ  póde  eílar 
na  pratica , o que  nao  eftá  na  Ley : direy , que 
naô  he  obfervancia  da  Ley  tranígreílào  delia 
para  fuílentarfe  o coílume  , que  em  fi  he  irra- 
cional. Tem  o ufo  força  de  Ley  , íc  nao  he 
reprovado  nelia  : a obfervancia  ajuflada  inter- 
preta a Ley  nos  privilégios , nos  eftados , e ou- 
tros aâ;os  5 mas  por  iílb  eu  digo  , que  efte  ufo 
donoílb  Paiz  he  errado  , por  fer  contrapofto  às 
Leys , aos  Doutores , e aos  principios , e precei- 
tos das  Iciencias  principaes  da  razao  reda , na- 
tural , e política , que  o conftituem  abominavel, 
e gerador  fecundo  de  tantos  abfurdos , que  nel- 
le  fe  defcobrem  em  qualquer  inveftigaçao. 

O Jurifta,  que  conhece , que  além  das  fete 
fciencias , que  Santo  Ifidoro  exemplificou  , faô 
liberaes  todas  as  Artes  dignas  do  V arao  livre , 
e que  os  Gregos  reputaraô  por  liberaes  , detef- 
tará  eíle  abufo  contrario  aos  elementos  da  ver- 
dadeira Jurifprudencia  , pois  vê  defefiimada  a 
Pintura , Arte , que  roscxplica  , e irfirue  me- 
lhor, que  outra  alguma,  o que  he  bom,  e em 

que 


4©  Cartâ  Apologética^ 

que  íe  ajuílao  completamente , a definição , e 
os  predicados  das  fciencias  liberaes,  que  tanto 
fe  reípeitaraÔ  nos  feculos  Romanos. 

O Canonifta , que  venera  por  nobre  a fci- 
encia , que  nos  conduz  ao  exercício  das  virtu- 
des , e da  compoílura  das  noílàs  vidas , reprova- 
rá eíle  abufo  , vendo  abatida  a Pintura , que  he 
o degráo  pelo  qual  fubimos  ao  conhecimento 
do  que  hejufto,  e das  maravilhas  deDeos,  e 
he  Hiíloria  dos  fabios  , e Meftra  muda  , elo- 
quente , e doutrinal  dos  idiotas. 

O Theologo , que  pela  doutrina  de  Santo 
Agoftinho  reputa  fciencia  liberal  tudo  o que  nos 
dirige  para  fim  virtuofo , e noticia  do  Creador 
fupremo , maldizerá  efte  abufo  j porque  a Pin- 
tura nos  moílra  o caminho  redo , pelo  qual  de- 
vemos caminhar  a eflè  fim , e nos  dá  luz  clara , 
e vifivel  da  Hiftoria  fagrada  , da  reprefentaçaS 
poffivel  deDeos,  dasíuas  creaturas , edafer- 
mofa  maquina  de  huma , e outra  Jeruíàlem. 

O político  , e erudito  na  Hiíloria  univer- 
íâl  blasfemará  contra  efle  abufo,  tendo  lembran- 
ça da  diílinçao  das  honras  , e dos  cabedaes, 
que  em  todos  os  leculos  merecerão  os  Pintores 
infignes , Gigantes  heroicos  da  eílimaçaÔ  poli- 


e Amúytka. 

tica,  naô  mais  generofa  para  com  elles , do  que 
merecida  : e fujeito  o abufo  a eftas  detefla- 
çoes , e blasfêmias , para  onde  fugirá , que  nao 
experimente  mayores  invedivas  , e condemna- 
ções  ? Se  para  os  Direitos  Legaes , fe  para  os 
Canonicos,  fepara  os  preceitos  Theologicos,  íè 
para  os  Politicos  de  todo  o Mundo , nada  acha- 
rá, que  o patrocine  com  evidencia:  fepara  os 
Doutores , poucos  contará  por  fi  na  compara- 
çao  dos  muitos  , que  o encontrão:  fe  para  os 
fundamentos , fao  elles  tao  humildes , como  o 
he  o juizo  , e a paixao  de  quem  fe  aproveita 
delles. 

Dizem , que  he  mechanica  a Pintura , por 
íe  exercitar  com  matérias , ou  materiaes  de  bai- 
xa qualidade.  Eííès  fragmentos  , por  nao  di- 
zer trapos , de  que  fe  fórma  o papel , e eíla  vil 
pelle , de  que  fe  compoem  o pergaminho , em 
que  fe  efcrevem  , e praticao  as  Sciencias  , as 
Theologias,  os  Cânones , as  Leys , as  Hiftorias, 
e o mais  que  he  fcientifico  , faõ  mais  nobres , 
que  o pano , o cobre , a taboa , em  que  fe  exer- 
cita a Pintura  ? A penna  , e a tinta , que  ferve 
às  fciencias  liberaes , fa5  de  material  fublime  ao 
pincel;  e às  cores ; de  que  ufa  o Pintor?  Efcre- 

F ve 


4 2 Carta  Jpologetica , 

ve  o Jurifta  , o Canonifta,  oTheoIogo,  e o 
Hiíloriador  no  papel , e no  pergaminho  com  a 
penna , e a tinta  , que  tudo  em  fi  he  matéria 
vil , e tem  valor  limitado  j e nem  por  iílb  he 
mechanico  o Jurifta , o Canonifta  , o Theolo* 
go , e o Hiftoriador  : e ha  de  lêr  plebeo  o Pin- 
tor , porque  com  pincéis , e tintas  de  preço  uíà 
de  panos , e de  materiaes  fubidos  , nos  quaes 
lança  as  Imagens  ? 

Se  Homero , íè  Virgilio , fe  Camoens , fe 
Cicero , e outro  Heroe  das  idades  paflàdas  eí- 
creveflè,  e com  letras  de  ouro,  o feu  Poema , as 
fuas  Orações  no  papel,  ou  material  alh,eyo,  ain- 
da que  humilde , cederia  tudo  ao  papel , e ao 
material , adquirindo-fe  ao  dono  delle , e naÔ  o 
papel  , e material  a Homero  , Virgilio , Ca- 
moens , e Cicero.  Mas  fe  o Pintor  cgnfpicuo 
pintaftè  em  huma  lamina  de  prata , ou  de  ouro, 
huma  figura  ajuftada  ao  primor  da  Arte , cede- 
ria a lamina  à Pintura  como  parte  nobiliflima, 
que  attrahia  afio  menos  nobre:  diftefle  oju- 
rifconfulto  Paulo  o contrario  , porque  foy  re- 
provado no  Direito  noviftimo  de  Juftiniano. 

Por  iflb  Pomponio  determinou  , que  as 
Pinturas  feitas  na  prata  fe  naÕ  incluiíilem  no  le- 


e Analytica,  4 3 

gado  delia  : imagines  argente<e  argenti 

appellatione  continehuntur  j e eftas  imagens  la- 
bem os  eruditos  , que  íe  entendem  da  Pintura 
pela  L.  Si  Imaginem,  CS*  in  rubric.  Cod.  de  St  a - 
tuis , CS*  Imaginibus ; naô  fendo  aífim  nas  pe. 
dras  precioíàs , porque  logo  no  Perveniamus, 
diílè , que  cedeílém  ellas  à prata  j que  he  tal  no 
juizo  das  Leys  a excellencia  da  Pintura , que 
attrahe  a fi  como  acceíibrio  menos  nobre  a ma- 
téria da  prata , que  a reípeito  das  pedras  precio- 
fas  fe  reputa  como  caufa  principal ; Pervenia~ 
mus  adgemmas  inclufas  argento , auroque.  Et 
ait  Sabinus , aiiro,  argentoque  cedere.  E pouco 
importa  , que  feja  a prata  material  mais  nobre  no 
concuríb  das  pedras  preciofas  , fe  concorrendo 
com  a Pintura , ha  de  fer  ella  mais  preciofa , que 
a prata.  Pinta , torno  a dizer,  o Artifice  empa- 
no , em  taboa , em  cobre  , em  marfim , em  cryf- 
tal , em  prata , e em  ouro ; e o Juriíla  , o Cano- 
nifta , o Theologo  , o Hiftoriador , efcreve  em 
papel  fomente  : ufaõ  huns  de  tinta  , e inftru- 
mentos  humildes , e o outro  de  tintas , e inftru* 
mentos  nobres  5 e nao  fey  defcobrir  razao  con- 
gruente, para  que  contemplados  os  matérias  íè- 
jao  o Jurifta,  o Canonifta , o Theologo  , e o 

F ii  Hif- 


44  Carta  Apologética^ 

Hiftoriador  nobres,  e o Pintor  feja  reputado  por 
mechanico. 

Dizem , que  por  venderem  as  fuas  obras , 
e trabalharem  afalariados.  He  forte  delirio , e 
paixaô  de  dizer , e defcuido , ou  ignorância  das 
Hiftorias ! Vender  as  obras  , como  naÔ  foílè 
perder  a fciencia , mas  eftimar  os  eííèitos , e pro- 
ducçôes  delia , foy  coílume  dos  Pintores  gran- 
des em  todas  as  idades , e por  preços  tao  fubi- 
dos , que  bem  moftrao  o valor  , e eftimaçaÔ , 
em  que  eftavao  reputadas  as  Pinturas.  Plinio 
refere  o preço  de  algumas , e nós  fabemos  mui- 
to bem  o como  as  dos  Pintores  antigos , e dos 
modernos , diílinóbos  na  fama  , fciencia  , e gof 
to  de  pintar , íê  coílumao  fatisfazer  , nao  fó  nef- 
te  Reyno  , mas  com  fuperior  ventagem  nos  em 
que  ha  mayor  eftimaçao  defta  fciencia.  Virgí- 
lio vendia  os  feus  Verfos  por  talentos ; Demof- 
thenes , e Cicero , as  Orações , que  faziao  ; e 
todo  o Orador  digno  íe  enriquecia  de  cabedaes 
pela  fua  fciencia  : o Advogado  'difpende  com 
honorário  a [fua  litteratura  nos  cofiíelhos , e nas 
allegaçóes : o Medico  cura  com  intereflè  a quem 
tem  com  que  Ine  pague : o Pregador  prega  na 
certeza  da  efmola , que  lhe  dao  pelo  Sermão : o 


e Amlyúca.  ^ 5. 

Juiz  nao  julga  fem  ordenado  ; e fínalmente  ha- 
vendo -direito  para  que  as  obras  ícientifícas  fe 
reputem  por  preço  nobre , nao  ba  Ley , nem 
Doutor , para  que  as  Artes  liberaes  percaó  a 
nobreza  , porque  fe  exercitaõ  com  intereílè. 

Já  ouvi  dizer , que  algumas  vezes  eraõ  fa- 
lariados  os  Pintores,  pondo-fe  no  predicamento 
de  jornaleiros : mas  logo  refpondi , que  tam- 
bém os  Eícrivaens,  os  Inquiridores  , os  Juizes 
dos  Tombos , os  Defembargadores,  que  fahem 
da  Corte  a diligencias,  vencem  falarios,  ou  ho- 
norários, contados  por  cada  hum  dia  , e com 
tudo  naô  erao  jornaleiros  , nem  mechanicos. 
Além  do  que,  eu  fallo  do  Pintor  confpicuo,  e 
nao  doabjedo,  humilde,  e borrador,  que  nao 
eílá  nagraduaçaS  de  Artífice  diftincfo  ; eaífim 
como  o Rabula  nao  merece  a honra , e nobre- 
za de  Advogado ; o nao  formado  na  Univeríi- 
dade  o diílindivo  honorifico  de  Medico  appro- 
vadoj  e o Pregador  idiota  a eflimaçao  de  de- 
clamador,perito;  também  eflà  efpecie  de  Pinto- 
res nao  participa  da  nobreza  privativa  dos  egré- 
gios , que  fe  luflentao  com  decencia , e gravi- 
dade ajuftada  às  fuas  pefiôas. 

Eftas  fao  as  duvidas , ou  as  bazes  , que 

fuften- 


Cartã  Apologética^ 


fuílentao  o abufo  de  Portugal  , aonde  os  Pin- 
tores fe  fazem  famofos  por  virtude  própria , in- 
fluxo do  clima  , e acçaô  da  natureza  , íèm  as 
exaltações  , que  fizerao  nos  outros  Reynos  a 
tantos  Pintores  memoráveis , e grandes : o cer- 
to he,  que  ageraçao  política,  generofa,  epre- 
ciía , em  que  devem  defvelaríe  os  Príncipes  vi- 
gilantes do  nome , e da  gloria  dos  feus  Impérios, 
fá  fe  confegue  creando  engenhos,  produzindo 
f tbios  , e exaltando  fciencias , animando , e en- 
nobrecendo  os  homens  dignos  com  as  graças , 
que  inflammem  os  efpiritos , e perpetuem  a glo- 
ria dos  Soberanos.  Poriílb  alentar  as  virtudes, 
e os  virtuoíbs , promover  as  Artes , premiar  as 
fciencias,  foy  íêmpre  o didame  melhor  dos  Mo- 
narcas , e da  Republica  bem  governada , para 
que  fe  eleve  a gloria  publica , e fe  naõ  injuriem 
os  fabios,  privados  da  remuneração , que  mere- 
cem j porque  fe  no  Syftema  Eftoico  a virtude 
era  o prémio  de  fi  mefma  , nós , que  com  luz 
raiis  clara  nos  apartamos  da  auíleridade  defte 
Syftema  , neceftitamos  dos  prémios  precifos, 
como  frutos  da  virtude  ; e para  que  ella  íe  nao 
efterilife,  fe  fazem  importantes  as  mercês,  e re- 
tribuições , com  que  a fciencia  fe  fuftente  no 

feu 


e Analytica.  47 

feu  decoro , e eíplendor ; pois  nao  renovamos 
as  idades , em  que  os  Filoíofos  ( foflê  foberba , 
vaidade , ou  perfeiçaS  nelles)  af!èâ:ava5  amife- 
ria  de  cabedaes  pela  melhor  riqueza , exaltando 
por  tymbre  das  fuas  fabedorias  o defintereíle  no 
deíprezo  das  grandezas. 

Houverao  Apelles , Rafaéis , Bonarotas , 
Ticianos,  Rubens , Duréros  , Brandinélles , e 
outros  V aroens  infignes  nos  feus  feculos , como 
feraô  memoráveis  em  todas  as  idades ; porque 
tiveraÔ  Alexandres,  Summos  Pontifices Leoens, 
Pios , Duques  de  Florença  , Carlos  V. , Filip- 
pes , e outros  Monarcas , que  honraraÔ  a fcien- 
cia  da  Pintura  na  exaltaçaó  dos  feus  Profeflòres. 
Quem  ler  em  Plinio , V alari , Palomino  , e ou- 
tros Hiftoriadores  os  feculos  deftes  grandes  ho- 
mens , vendo  occupados  por  elles  os  empregos 
mais  diftinâios , admirará , que  dignamente  fo- 
rao  Embaixadores , Plenipotenciários , Condes, 
Gentis-homens , Secretários , Cavalleiros,  arma- 
dos pelas  mãos  dos  Príncipes , Arcebifpos , e 
Conegos  nas  primeiras  Cathedraes  5 porque  os 
braços  daquelles  Monarcas  liberaes , e retribui- 
dores  com  as  fciencias , as  premi  avao  com  cre- 
dito da  Mageftade , fó  Augufto , em  gráo  ex- 

cellente , 


Cirta  Jpologetica , 


cellente  , quando  fertiliza  a Republica  com 
Varoens  fabios  , que  fao  o ornamento  delia , 
e a gloria  indelevel  dos  Reys  , que  amaõ  o 
nome  , e adiantao  a reputaçao  dos  feus  Impé- 
rios. 

Até  em  Portugal  lemos  aos  dous  Chrifto- 
vao  Utreque,  e Lopes,  Balthalar  , e Afionfo 
Alvares , Nicoláo  de  Frias , Aíibnío  Sanches, 
Filippe  Tercio,  premiados  com  o Habito  da  Or- 
dem Militar  de  Chriílo , ( honra , que  naõ  era 
vulgar  naquelles  reynados  ) e ao  dito  Filippe 
Tercio , Commendador  j e naÕ  cederia  Portu- 
gal aos  Reynos  do  Mundo  na  fecundidade  de 
Varoens  eminentes  nefta,  e outras  fciencias,  íè 
os  engenhos , de  que  a natureza  , e o Paiz  fao 
liberaliííimos  para  comnofco,  foflèm  alimenta- 
dos com  a eftimaçaÔ  politica , e as  liberalidades 
ajuíladas  à fua  fciencia.  Mas  vemos,  que  (pre- 
vertido  o fyftema  do  Mundo  morigerado ) fe 
humilhao  os  Profeíibres,  diftindos  da  Pintura, 
na  honra  da  politica , reduzindo-os  o vil  efpirito, 
de  quem  aífim  o entende , ao  conceito  de  me- 
chanicos , íêm  mais  fundamento  , que  a igno- 
rância das  Leys , do  coftume  univerfal  dos  Rey- 
nos , da  hiíloria  das  virtudes , que  fe  encerrao 

neíla 


e Analyttca»  45? 

nefta  fciencia , e das  fupremas , e Auguflas  pet 
foas,  que  a exercitaraõ. 

Quem  lançar  a viíla  aos  Impérios  do  Mun- 
do, verá  efcrito  no  Catalogo  efpeciofo  defta  íci- 
encia , como  Pintores , a Conftantino  VIII. , a 
Adriano  , a Marco  Antonio  Filoíbfo  , a Ale- 
xandre Severo  , ajuíliniano,  a Valentiniano,  a 
Gordiano , a Nero , a Elio  Aureliano , a Marco 
Antonio  , a Augufto , a Tiberio  , a Theodofio 
II. , a Maximiano  II. , a Carlos  V. , todos  Em- 
peradores : verá  também  a Francifco , Rey  de 
França,  aos  quatro  Filippes , Reys  deCaftella, 
os  Infantes  de  Hefpanha , a D.  Joaô  de  Auftria, 
a Carlos  Manoel , Duque  de  Saboya  , ao  Du- 
que de  Orleans , exercitando  efta  fciencia  primo- 
roíàmente  : verá-  em  Roma  ao  Pontifíce  Cle- 
mente XI. , e ao  Cardeal  Aquaviva.  Na  jerar- 
quia dos  Duques  , e Grandes  ao  Marquez  de 
Monte-Bello , Grande  em  Portugal , e Embai- 
xador a Roma , Pintor  excellente , vivendo  da 
Pintura , e Meftre  de  hum  filho  de  Filippe  IV. , 
o Duque  de  Ufeda , o Duque  de  Alcalá , o 
Marquez  de  Aula  , o Conde  de  Tuia  , e outras 
Perfonagens  defta  esfera.  Na  Eccleíiaftica  a D. 
Joao  , Àrcebifpo  de  Cantuaria , D.  Jeronymo 

G Maf- 


5 o Carta  Apologética , 

Mafcai'enhas , Bifpo  de  Segovia , e outros  Prín- 
cipes da  Igreja , por  fer  a Arte  de  Pintar  digna 
das  mayores  jerarquias , e eílimada  em  todos  os 
Eílados  Ecclefiafticos , e Seculares. 

No  Catalogo  das  Senhoras  Illuílriffimas , 
e de  grandes  Titulos , e Eílados  lerá  a Duque- 
za  deBejar,  aDuqueza  de  Aveiro,  aCondef 
fa  de  Valumbroíà  , e outras  Senhoras  da  pri- 
meira graduaçao  em  Caílella : e em  Portugal  a 
Condeíià  de  Aílíimar , a Marqueza  de  Frontei- 
ra , a Senhora  D.  Maria  Magdalena  de  Caílro , 
mulher  do  Correyo  mór  do  Reyno ; e eu  refe- 
riria outras  Senhoras,  íênaô  baftaflè  para  cre- 
dito da  Pintura  leremfe  neflè  Catalogo  a Rai- 
nha de  Hefpanha  D.  Maria  Luiza  de  Borbon , 
a Senhora  Rainha  D.  Ifabel  Faraezio , mãy  da 
Rainha  noílà  Senhora  , e a V.  Excellencia  il- 
luílrando  fuperiormente  a íèrie  auguíla  das  íò- 
beranas , e Reaes  Artifices  da  Pintura. 

Se  depois  diílo  quizer  faber  a diílinçaô  de 
eílimaçoes , com  que  forao  reípeitados  os  Pin- 
tores iníignes,  deixe  osfeculos  dos  Apelles,  Zeu- 
zis,  Parrazios , Timantes , e outros , de  que  íe 
referem  honras  incriveis  j e lendo  a Hiftoria  de 
tres  feculos  a eíla  parte  , achará  tantas  coufas 


e jinalytica.  5 1 

paímofas , que  enchem  mais  a admiraçaô , que 
a grandeza : achará  a Rafael  de  Urbino  acom- 
panhado em  publico  decincoenta  dilcipulos,  fi- 
lhos da  primeira  nobreza  de  Roma ; e porque  o 
Pontifice  lhe  demorou  o Capello  Cardinalício , 
que  lhe  promettera , tanto  que  acabaílê  as  Pin- 
turas do  Vaticano  , o cafou  o Cardeal  Bibie- 
na  com  huma  fobrinha  , eftimando  em  muito 
o aparentarfe  com  o Apelles  daquelle  feculo: 
achará  a Miguel  Angelo  Bonarota  , Embaixa- 
dor da  Republica  de  Florença  à Santidade  de 
Julio  II. : a Ticiano , armado  Cavalleiro  daEfi 
pora  dourada  pelo  Emperador  Carlos  V. , Con- 
de Palatino  do  Sacro  Império  , Cavalleiro  do 
Habito  de  Santiago , e Gentil-homem  do  mef- 
mo  Emperador : a Rubens , Embaixador  Ex- 
traordinário para  as  pazes , que  ajuílou  entre 
Inglaterra,  e Hefpanha,  armado  tres  vezes  Ca- 
valleiro, porElRey  de  França,  ElRey  de  In- 
glaterra , e pelo  Archiduque  Alberto , Gentil- 
homem  da  Archiduqueza  , e Secretario  de  Efi 
tado  deFlandes:  a Alberto  Durero , Grande  do 
Império  pelo  Emperador  Maximiliano:  a Dio- 
go  V elafques.  Pintor  da  Camera  de  Filippe  IV. 
Cavalleiro  do  Habito  de  Santiago  , Apofenta- 

G ii  dor 


t Carta  Jpologetica , 

dor  mór  , e Enviado  Extraordinário  ao  Papa, 
de  quem  recebeo  honras  efpeciaes  ; e além  dei- 
tes outros  , que  referirey  em  catalogo  refumi- 
do , e admirará  o Leitor  a felicidade  daquelles 
feculos,  e dos  feus  Monarcas,  que  eternilaraÔ  os 
nomes  nasHiftorias  daquelles  Varoens  grandes. 

Agora  preguntaria  eu  aos  Contraftes  da 
nobreza  da  Pintura  qual  foy  a fciencia  , que 
teve  tantos , e tao  Auguílos  Profeílbres  ? Qual 
a que  dos  principios  debeis , que  todas  tiverao, 
fe  exaltou  em  Diícipulos  , e Artifices  como  a 
Pintura  , nobiliíííma  muitos  feculos  antes , que 
as  Artes  foílèm  liberaes  ? Qual  comprehende 
em  íi  como  a Pintura  com  exercício  exprelíivo , 
e fabio  tantas  fciencias  heroicas  ? Qual  nos  dá 
preceitos  mais  vifiveis  para  a moralidade  dos 
noflòs  coílumes  , nos  enfina  os  paílbs  da  Hifto- 
ria  da  antiguidade  fagrada  , nos  converte  para 
o caminho  da  virtude , e moílra  a idea  poflivel 
da  Bemaventurança  ? E qual  a em  que  adora- 
mos a Deos  , a Virgem  Santiííima  Noílà  Se- 
nhora , aos  Santos , e aos  myfterios  da  nofla  Fé 
vifivel , e vivamente  como  a Pintura  , que  nos 
reprefenta  em  Imagens  fagradas  a Theologia 
pratica , e a crença  da  noíTa  Religião  ? 

Tempo 


e Analytica.  5 3 

Tempo  era  agora  de  fe  enfurecer  o efpi> 
rito , íê  nao  eftiveílè  doutrinado  pela  longa  dif- 
ciplina  de  tantos  annos  contra  efte  abufo  de 
Portugal  : e confeflàndome  eílès  antagoniílas , 
que  aí  ciência  digna  de  Varaõ  livre,  e que  con- 
duz para  fins  virtuofos , era  nobre , os  arguiria 
de  injuftos , e temerários , em  julgarem  mecha- 
nica  a Pintura,  que  fe  exercitou , e exercita  por 
pellòas  ingênuas,  e muitas  excelias,  e para  efíèi- 
tos , e frutos  de  efpiritual  aproveitamento. 

Recorrem  a que  efle  ponto  foy  fempre 
de  opinião  , como  fe  neíle  Mundo  houveflè 
couíâ , que  nao  fofíè  opinavel  na  vafta , e arbi- 
traria liberdade  dos  homens  , e preguntara  eu 
para  que  ha  de  a Pintura  repiitarfe  mechanica, 
tendo  opinioens  para  ler  nobre,  ofièndendo-fe  a 
efiè  fim  todas  as  razoens  civis , moraes , e polí- 
ticas , que  nao  mereciao  oflênderemfe  : otíèn- 
de-fe  a razao  civil , porque  fe  perverte  a inten- 
ção das  Leys , cujos  fins  fe  dirigirão  a ennobre- 
ceremfe  as  Artes  liberaes , em  que  a Pintura  fe 
comprehendeo  em  todos  os  feculos ; offende-fe 
a moral , porque  fe  abate  huma  fciencia , que  he 
produzidora  de  tantas  virtudes:  otfende-fe  a po- 
lítica , porque  fe  encontra  0 augmento  dos  V af 

G iii  fallos 


54  Carta  Jpologetica  ^ - 

fallos  dignos , fe  desluílra  a gloria  , e reputaçao 
do  Reyno  no  abatimento  da  Iciencia , que  can- 
tou as  primafias  em  todos  os  Impérios  do  Mun- 
do , e foy  exercitada  pelos  mayores  , e melho- 
res Monarcas  delle,  como  aprimeira  das  Artes 
liberaes , pelas  íciencias , que  comprehende , e 
pelos  frutos , e documentos  da  fua  doutrina : e 
ifto  por  huma  opiniaÕ , que  examinada  na  raiz, 
no  numero  , e na  qualidade  dos  Doutores , fe 
nao  he  improvável  , tem  menos  probabilidade 
efpeculativa , e pratica , que  a opinião  favorá- 
vel à Pintura. 

Para  fer  ingênua  efta  fciencia  como  Arte 
liberal , fe  unem  os  difcuiTos , que  deixo  efcri- 
tos : fe  uniformaô  os  Doutores  em  mayor  nu- 
mero , e concorrem  as  muitas  íentenças , que 
tem  os  Pintores  a feu  favor  para  ferem  ifentos 
das  penfôes , e dos  minifterios , a que  fao  ílijei- 
tos  os  plebeos.  Nao  pagao  jugada , nem  fe  íli- 
jeitao  ao  Senado , e às  Prociflbens  delle , nem  a 
Bandeira , como  os  officiaes  mechanicos , por- 
que a eftes  refpeitos  naõ  fe  diílinguem  das  pef. 
íbas  nobres  , e fó  fe  abatem  fendo  difpenfados 
para  os  hábitos  das  tres  Ordens  Militares , em 
que  os  nobres  fe  nao  diípenfao. 


Eíle 


e Ãnalyticái  5 5 

Efte  he  o abufo  5 e donde  elle  poílà  naí^ 
cer , eu  o ignoro , pelos  fundamentos , que  re- 
feri : e fe  o fer  mechanica  a Pintura  nafce  de 
ter  dependencia  da  operaçaô  manual , como  ou- 
vi dizer ; qual  he  a Iciencia , que  fe  nao  fubor- 
dina  a eílà  operaçao , e que  fe  exercita  abfolu- 
tamente  fem  intereílè  ? Préga  o Orador  Euan- 
gelico : exercita  o Sacerdote  o fanto  Sacrifício 
da  Miflâ  : adminiftra  o Pároco  os  Sacramentos 
da  Igreja : julga  o Miniftro  as  demandas : advo- 
ga o Patrono  nos  litigios : canta  o Mufico  : cu- 
ra o Medico : eníína  as  fciencias  o Meftre.  E 
porque  tudo  iílo  fe  obra  com  trabalho  corpo- 
ral , e com  honorário  , e eftipendio , nada  diflo 
ferá  nobre  ? E qual  he  a Arte  de  juizo , que  paf 
fando  da  theorica  para  a pratica  fe  exercita  fem 
miniílerio  do  corpo , que  he  o exercitador  da 
eípeculaçao  do  entendimento  ? 

Se  por  na5.  eftar  a Pintura  declarada  nas 
fete  Artes  liberaes  , que  individuou  Santo  líí- 
doro  ; já  diíTe,  que  nellas  fenao  excluíao  todas 
as  mais,  pois  a Jurifprudencia  , e a Medicina,, 
que  fao  ingênuas  , fe  nao  nomearao  naquellas 
íete  Artes.  Todos  aílèntaÔ , que  Santo  ífido- 
ro  nao  taxou,  as  Artes , mas  que  ufando  do  nu^ 

mero. 


5^  Ca.Ytà  Apologética^ 

mero  íètenario , que  como  perfeito  foy  muito 
eílimado  dos  Antigos , explicou  , e comprehen- 
deo  nas  ditas  Artes  todas  as  fciencias , que  íè 
rymbolifaílèm  nellas , ou  tiveflém  analogia , e 
commercio  com  algumas  delias  j e por  iílb  a Ju- 
rilprudencia , a Medicina , e outras  faculdades , 
que  o Santo  nao  nomeou  , fao  liberaes , tanto 
como  as  íète  nomeadas  por  elle.  AÍIim  que  eu 
naô  fey  defcobrir  principio  legal  , ou  politico , 
para  efta  diftinçao , certamente  metafyíica , com 
que  entre  nós  he  tratada  a Pintura , como  no- 
bre para  muitos  effèitos , e mechanica-y>ara  ou- 
tros, concordando-fe  fyficamente  na  mefma  fci- 
encia  effeitos  contrários  de  nobreza  , e plebeci- 
dade , naÓ  nos  accidentes , mas  na  fubftancia , 
quero  dizer , diverfas  fubfiftencias  no  mefmo  fu- 
geito,  na  mefma  eílència,  e na  mefma  nature- 
za. 

Nefte  ponto  me  deíêjava  demorar  , pois 
haviao  alguns  difcurfos  de  excellente  Filofofía. 
Direy  , que  a Pintura  , que  em  quanto  fcien- 
cia , fe  funda  fó  em  ados  interiores , ou  fejaô 
do  entendimento , ou  da  imaginativa  poíla  em 
pratica,  enaoperaçao  das  mãos  dos  Pintores, 
he  obra  externa  fecundaria , e accidental , que 

fó 


e Analytlcü,  5 7 

fó  ferve  para  exprimir  os  conceitos,  formados 
na  idea  do  Artifice , que  em  quanto  nao  paílã 
de  idea , naô  he  matéria , corpo , ou  accidente 
de  alguma  fubftancia , mas  ordem , regra , for- 
ma , e objedo  do  entendimento  , que  difpoem 
por  modo  eminencial  a figura , que  fe  ha  de  pin- 
tar , e que  antes  de  pintada  íó  eílá  no  concei- 
to intelledivo  do  Artifice,  e tudo  o mais  faô 
áccidentes , que  nao  mudaõ  a fubftancia , mas 
fó  exprimem  os  conceitos , que  fe  formaraÔ  no 
jyizo. 

Efia  diftinçao  de  rcfpeitos , em  que  con- 
fiíle  o abufo , pertende  a Pintura  fe  extinga  em 
Portugal , para  que  fique  igualada  em  tudo  com 
as  Artes  liberaes  , que  ella  illuftra  perfeitamen- 
te j e ninguém  ( Illuílriííima  , e Excellentiífima 
Senhora)  melhor  que  V.  Excellencia  tem  dado 
teftemunhos  gentis , e elegantes  defta  verdade. 
Nao  pode  fer  aProtedora  outra,  nem  mais  Au- 
gufta  , que  V.  Excellencia , nem  o tempo  mais 
proprio  para  a exaltaçaÓ  defta  prerogativa  , que 
o reynado  de  hum  Monarca  Jofeph , que  em 
tantas  acções  de  diftinda  generofidade  exerci- 
ta o augmento , que  promette  o feu  Nome.  De 
hum  Rey  Jofeph , cujos  principies  felices  nos 

moílraõ 


j 8 Carta  Apologética  ^ e Analytica, 

moftraõ  já  o Império  ditoíò  , que  illuftrará  os 
Faílos  de  Portugal , eícrevendo-fe  nelles  as  vir- 
tudes delRey  noílb  Senhor , e os  frutos  fazona- 
dos  da  prudência , e do  entendimento  , que  eílá 
produzindo  o feu  juizo  nos  annos  da  puberdade. 
E já  que  eíla  grande  fciencia  logra  a felicidade 
de  ter  em  V.  Excellencia  huma  Heroina  , que 
a ennobrece , efpera  juftamente  configa  Vofla 
Excellencia  da  mao  Real , e fempre  generofa 
do  mefmo  Senhor,  o Decreto , em  que  declare, 
que  he  ingênua  em  tudo  a íciencia  da  Pintura, 
e como  Redemptora  da  ília  ingenuidade  em 
Portugal , fe  grave  o nome  de  V.  Excellencia 
no  Catalogo  dos  Sacros , e Reaes  exaltadores 
deíla  Arte  , digna  defte  patrocínio  de  V.  Ex- 
cellencia j afíim  como  foy , he , e ferá  beneme^ 
rita  da  fua  applicaçaÔ  fcientifica , e admiravel. 
Deos  guarde  a Voíla  Excellencia  muitos  annos. 
Lisboa  7 de  Novembro  de  1751. 

111.™  e Ex.^s»  S."  Marqueza  Camereira  raór. 

De  V.  Excellencia 

Menor  Criado. 
yofeph  Gomes  da  Cfuz, 


jro 


g V-  ^ C 

(;  C H ^ ^ ^ 


1-^' 

THE  GETTV  CENIER 
L(8RARy